Por Ednete Bezerra
Todo 8 de março, o Poder Judiciário realiza homenagens e campanhas institucionais que ressaltam a importância da equidade de gênero. No entanto, ao observar a estrutura de poder, percebe-se que, mesmo sendo maioria em diversas áreas, as mulheres ainda têm participação limitada nos espaços onde se definem rumos estratégicos da Justiça brasileira.
Em 2026, as mulheres têm presença expressiva no Judiciário brasileiro. Estão nas secretarias, nos gabinetes, nas áreas técnicas, administrativas e de apoio direto à atividade-fim. De acordo com dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), elas representam a maioria nos cargos comissionados, ocupando cerca de 54% dessas funções, e respondem por 46% dos cargos de chefia. São profissionais que contribuem diariamente para o funcionamento do sistema de Justiça, mas ainda aparecem em menor número nos espaços de decisão estratégica.
O acesso das servidoras aos cargos de maior responsabilidade nem sempre está relacionado à falta de qualificação, mas também a fatores estruturais que historicamente influenciam as trajetórias profissionais das mulheres. Mesmo com currículos sólidos, formação continuada e anos de experiência, muitas encontram desafios adicionais para ascender, especialmente quando a ascensão exige disponibilidade total, mobilidade geográfica ou jornadas difíceis de conciliar com outras atividades do cotidiano.
A chamada dupla jornada não é um conceito abstrato. Ela se manifesta no dia a dia de muitas profissionais. Pesquisas mostram que a maioria das mulheres adia cursos, especializações e oportunidades profissionais por assumir, quase sozinha, as responsabilidades com filhos, idosos e a organização da vida doméstica. No Judiciário, isso pode se refletir em trajetórias profissionais mais lentas e em um custo invisível que raramente aparece nos relatórios de produtividade.
Além disso, o ambiente institucional ainda convive com práticas culturais que vêm sendo gradualmente superadas, mas que persistem em alguns contextos. Reuniões em que mulheres são interrompidas, ideias inicialmente desconsideradas e depois valorizadas quando repetidas por homens, ou decisões técnicas submetidas a questionamentos mais frequentes são situações relatadas por muitas profissionais. Esses comportamentos, como o chamado manterrupting, revelam desafios que ainda precisam ser enfrentados para fortalecer ambientes mais inclusivos.
Mesmo diante dessas barreiras, as servidoras seguem ampliando a presença e a contribuição institucional. Lideram equipes, organizam fluxos processuais, garantem a eficiência administrativa e sustentam a prestação jurisdicional. Seu trabalho é essencial para que a Justiça funcione de forma contínua e eficiente.
Por isso, falar de mulheres no Judiciário não deve se limitar a iniciativas simbólicas. É importante que a valorização evolua também em políticas institucionais que ampliem oportunidades de liderança e participação em ambientes estratégicos. Critérios transparentes, processos seletivos claros e estímulo à diversidade nas funções de direção e assessoramento podem contribuir para esse avanço.
Também é fundamental considerar os desafios relacionados à maternidade. Modelos de teletrabalho bem estruturados, jornadas que considerem as demandas da primeira infância e critérios de avaliação que levem em conta diferentes realidades familiares são instrumentos que favorecem ambientes de trabalho mais justos. Não se trata de privilégio, mas de promover condições mais equitativas.
Valorizar as servidoras do Judiciário é fortalecer a própria instituição. A diversidade de perspectivas contribui para ampliar a capacidade de gestão, escuta e organização das equipes, além de favorecer ambientes de trabalho mais colaborativos. Esses fatores impactam diretamente a qualidade do serviço público prestado à sociedade.
No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, o Judiciário tem a oportunidade de avançar para além das homenagens simbólicas, consolidando políticas que ampliem o reconhecimento e as oportunidades para as servidoras. Mais do que flores, as mulheres desejam ver sua contribuição refletida em condições justas de trabalho e em maior presença nas tomadas de decisão.
A Justiça se fortalece quando sua estrutura de poder reflete a diversidade e a representatividade da sociedade que ela serve.

Ednete Bezerra é diretora do Sindicato dos Servidores do Poder Judiciário e do MPU no DF (Sindjus).