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Opinião

Itália mantém restrições à cidadania e muda regras do jogo

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que essa mudança também reflete uma estratégia mais ampla do governo italiano

Redação Jornal de Brasília

02/05/2026 13h07

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Por Renata Bueno, ex-parlamentar italiana e advogada internacional

A recente decisão da Corte Constitucional da Itália de manter as restrições à cidadania italiana, introduzidas a partir do chamado “Decreto Tajani”, marca um momento decisivo no debate sobre o reconhecimento da cidadania por descendência. Não se trata apenas de uma mudança normativa, mas de uma inflexão na forma como o Estado italiano passa a interpretar um dos pilares históricos de sua identidade jurídica: o ius sanguinis.

O argumento apresentado no acórdão — de que as regras anteriores favoreciam a criação de “cidadanias virtuais” — revela uma preocupação legítima do Estado com a efetividade do vínculo entre cidadão e território. No entanto, essa justificativa abre espaço para uma reflexão mais profunda: até que ponto é possível restringir um direito tradicionalmente reconhecido como originário sem comprometer princípios fundamentais, como a segurança jurídica e a proteção de direitos adquiridos?

Estamos diante de uma tentativa de reconfiguração de um direito que sempre foi entendido como inerente à própria condição de descendente. A cidadania italiana, historicamente, não se constituiu como uma concessão, mas como um reconhecimento. Alterar essa lógica exige cautela — e, sobretudo, coerência constitucional.

É inegável que o chamado Decreto Tajani introduziu uma abordagem mais restritiva, limitando o alcance geracional e impondo novos critérios que, na prática, tornam o acesso mais complexo. Isso impacta diretamente milhões de ítalo-descendentes, especialmente no Brasil, onde a herança italiana é parte viva da formação cultural e social.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que essa mudança também reflete uma estratégia mais ampla do governo italiano. Há um movimento claro de reaproximação com aqueles que já possuem a cidadania, incentivando não apenas o reconhecimento formal, mas a vivência concreta desse vínculo. Morar na Itália, aprender a língua, integrar-se à cultura e participar ativamente da sociedade são elementos que passam a ser valorizados como expressão de uma cidadania mais “real”.

Essa perspectiva, embora não substitua o direito, oferece uma nova dimensão de oportunidade. Para muitos, pode significar mais do que o acesso a um passaporte europeu: pode representar uma reconexão autêntica com suas origens, com a história familiar e com o próprio significado de pertencimento.

Ainda assim, o cenário está longe de ser definitivo. Persistem divergências no Judiciário italiano, decisões contraditórias e uma clara sensação de instabilidade jurídica. Esse contexto exige análise cuidadosa, estratégia e acompanhamento especializado para aqueles que buscam o reconhecimento de sua cidadania.

O grande desafio que se impõe agora é encontrar um equilíbrio entre a necessidade administrativa do Estado e a preservação das garantias fundamentais. A forma como essa equação será resolvida definirá não apenas o futuro da cidadania italiana, mas também o alcance do próprio conceito de identidade nacional em um mundo cada vez mais globalizado.

Renata Bueno é uma parlamentar ítalo-brasileira nascida em 1979 em Brasília, DF, Brasil. Conhecida por seu envolvimento na política e na defesa dos direitos dos descendentes de italianos no Brasil. Renata Bueno foi eleita deputada federal em 2010, sendo a primeira mulher eleita pelo Partido Socialista Italiano (PSI) fora da Itália. Sua atuação política tem sido focada em temas relacionados à cidadania italiana, imigração, e fortalecimento dos laços entre Brasil e Itália. Ela é presidente da Associação pela Cidadania Italiana no Brasil e tem trabalhado para facilitar o processo de reconhecimento da cidadania italiana para descendentes de italianos no país. Além de parlamentar, Renata é advogada e empresária, com o Instituto Cidadania Italiana e Mozzarellart.

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