Por Simone Salles
Houve um tempo em que a notícia nascia devagar. O som das máquinas de escrever, o cheiro da tinta no papel, a espera pela edição impressa do dia seguinte. O jornalismo era quase artesanal: apurar, checar, ouvir, escrever e só então publicar. O erro custava caro, porque não havia botão de “editar depois”. Hoje, a notícia corre. Ela nasce no celular, atravessa redes sociais e chega em segundos a milhões de pessoas.
A velocidade mudou tudo, inclusive o peso da responsabilidade. Informar passou a exigir vigilância constante contra boatos, manipulações e versões incompletas. Ser jornalista neste tempo é viver em movimento contínuo. É lidar com a pressão do imediato sem abrir mão da verdade.
Em meio ao ruído da desinformação, o compromisso com a apuração se torna ainda mais decisivo. A história recente mostra como o jornalismo pode mudar o rumo das coisas. No Brasil, o caso do jornalista Tim Lopes, assassinado em 2002 enquanto investigava o crime organizado, expôs ao país realidades que muitos preferiam ignorar. Sua morte chocou, mas também reforçou a importância de um jornalismo que vai além da superfície, que arrisca mostrar o que precisa ser visto. No cenário internacional, a investigação do Watergate, conduzida por Bob Woodward e Carl Bernstein, levou à renúncia de um presidente dos Estados Unidos. Um exemplo clássico de como o jornalismo, quando bem feito, informa e transforma.
Não por acaso, uma das frases mais repetidas no mundo da comunicação segue atual: “Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade”, atribuída a George Orwell. Em tempos de algoritmos e interesses, essa definição soa como um lembrete necessário.
Mas nem tudo avançou. Em 2009, uma decisão do Supremo Tribunal Federal retirou a exigência do diploma para o exercício do jornalismo no Brasil. Para muitos profissionais, foi um golpe na valorização da formação e na construção de uma imprensa mais qualificada. Não se trata apenas de um título, mas de reconhecer o papel do estudo na formação ética, crítica e técnica de quem tem a missão de informar.
Ainda assim, o jornalismo resiste. Ele se reinventa nas redações digitais, nos podcasts, nas reportagens independentes, nos conteúdos de streaming, nas redes sociais, na cobertura colaborativa que surge para dar voz a quem não tem espaço. Continua essencial.
A tecnologia não deve ser vista como inimiga, mas como parte dessa transformação dos produtos jornalísticos. O streaming, por exemplo, deixou de ser uma ameaça para rádios e TVs e passou a abrir novos caminhos de distribuição e linguagem. As redações vivem um processo contínuo de mudança, impulsionado por ferramentas digitais que estão longe de mostrar todo o seu potencial. A presença crescente da inteligência artificial, com o uso de chatbots e automações, já faz parte do cotidiano jornalístico.
Ao mesmo tempo, cresce a necessidade de reduzir a dependência das redes sociais e fortalecer uma relação mais direta com o público. Surgem clubes de leitores, novas formas de assinatura e espaços de participação que colocam o público não apenas como receptor, mas como parte da construção da notícia. No centro de tudo isso está o engajamento, não como número, mas como vínculo real, que se reformula nas redações digitais.
Porque, no fim, a sociedade precisa de alguém que pergunte, que divulgue, que duvide. Neste Dia do Jornalista, a homenagem não é apenas à profissão, mas àqueles que escolhem contar histórias reais em um mundo cada vez mais cheio de versões.
Como jornalista, acredito que há algo mais essencial nesse caminho, que é saber ouvir o que não foi dito. Porque nem sempre a verdade está nas palavras declaradas, mas nos silêncios, nas entrelinhas, nos gestos e nas ausências. É ali que muitas histórias começam, e provavelmente, onde o jornalismo encontra sua razão mais profunda de existir.