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Opinião

Do petróleo ao pênalti: a guerra que o Brasil trata como distante

Conflitos no Oriente Médio não ficam “lá fora”: eles sobem o custo da vida e, mais cedo ou mais tarde, atravessam o futebol

Redação Jornal de Brasília

05/03/2026 11h53

irã

Um menino caminha ao lado de um míssil não detonado que caiu em um campo aberto nos arredores de Qamishli, no leste da Síria, em 5 de março de 2026. Os países do Golfo têm sido alvo de repetidas ondas de ataques com drones e mísseis iranianos em retaliação à maciça campanha aérea conjunta dos EUA e de Israel.

Renata Nandes*

A guerra no Oriente Médio não é apenas uma sequência de atrocidades transmitidas em tempo real. Ela é, também, uma engrenagem que empurra preços, reorganiza rotas, pressiona moedas e amplia inseguranças. No Brasil, há um reflexo recorrente: tratar o conflito como assunto distante — até que ele apareça na bomba de combustível, no mercado e, surpreendentemente, no futebol. Porque é no futebol que o país costuma admitir que o mundo existe.

A distância não é geográfica: é emocional. Quando a realidade é grande demais, a mente procura atalhos. E a cultura digital oferece vários. Em meio ao fluxo incessante de imagens e “urgências”, a tragédia vira mais um item na fila do feed: passa, choca, cansa, some. O algoritmo, obediente, aprende rápido o que evitamos — e nos devolve exatamente esse alívio.

Não é que “as pessoas não saibam”. Muitas vezes, não conseguem sustentar. A defesa mais comum é transformar a guerra em “lá longe”, “complexa”, “não é comigo”. Essa anestesia é compreensível. Mas tem custo: abre espaço para simplificações, torcida por lados como se fosse clássico e, pior, uma desumanização silenciosa.

Mesmo para quem não acompanha geopolítica, a guerra chega por caminhos objetivos. O Oriente Médio é um eixo logístico e energético. Quando há risco sobre rotas, portos, infraestrutura e circulação, o efeito dominó é previsível: seguro, frete, oferta, energia, inflação. O resultado não é abstrato: afeta transporte, alimentos, indústria, juros, câmbio, expectativas.

O problema é que esse impacto costuma ser indireto e, por isso, socialmente “invisível” por um tempo. E o que é invisível vira terreno perfeito para o conforto: “isso não tem a ver com a gente”. Até ter.

O futebol não é só entretenimento: é um organizador de afetos coletivos. Ele dá forma a coisas que, fora dele, seriam difíceis de suportar — medo, rivalidade, desejo de pertencimento, necessidade de vitória, busca de sentido. Por isso, em momentos de crise global, o futebol funciona como válvula e termômetro.

É aí que a negação pode falhar. Quando a guerra começa a tocar questões de Copa do Mundo — segurança, logística, deslocamento, boicotes, restrições, tensões diplomáticas — o tema deixa de ser “internacional” e vira conversa de bar. O mesmo país que ignora o conflito no noticiário passa a se mobilizar quando ele ameaça o calendário do torneio, a presença de seleções, a atmosfera do evento, o custo de viajar, a sensação de estabilidade.

E aqui mora uma armadilha: o futebol pode ser o canal que desperta interesse — mas também pode virar a linguagem que empobrece a compreensão. Em rede social, a tendência é transformar tudo em disputa moral imediata: “expulsa”, “pune”, “cancela”, “boicota”, “apoia”. A complexidade vira enquete. A dor vira performance. A política vira torcida.

Talvez a pergunta não seja “por que o brasileiro não se importa”, mas como o brasileiro se protege. A cultura do feed mistura tragédia com distração, e a vida exige funcionalidade. Só que há um limite: quando o conflito pressiona o custo de vida e mexe com símbolos centrais — como o futebol — a conta psíquica e social aparece.

Podemos continuar escolhendo a anestesia: reduzir o sofrimento alheio a ruído e o nosso próprio incômodo a cinismo. Ou podemos usar a brecha que o futebol oferece para algo raro: ampliar repertório, sustentar ambivalências, recuperar humanidade.

Porque a guerra não precisa “chegar” ao Brasil para nos afetar. Ela já afeta. A questão é: vamos seguir chamando de distante — ou vamos admitir que o mundo também joga o nosso campeonato?

*Mestra em Comunicação Digital e psicanalista

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