Por Renata Bueno*
Todo dia 6 de janeiro, a Itália celebra a Epifania, popularmente conhecida como o Dia da Befana, uma tradição que encanta crianças e adultos, marcando o fim das festas natalinas com magia, doces e histórias antigas. A simpática bruxa Befana voa em sua vassoura na noite de 5 para 6 de janeiro, enchendo as meias das crianças com presentes e guloseimas ou carvão doce para as mais travessas.
O nome “Befana” deriva da corrupção da palavra latina Epifania, que significa “manifestação” ou “aparição”, referindo-se à visita dos Reis Magos ao Menino Jesus. Segundo a lenda mais conhecida, os Três Reis pediram indicações a uma velhinha ao passar por sua casa. Ela os acolheu, mas recusou acompanhá-los. Arrependida, preparou um saco de doces e saiu à procura do Menino Jesus, distribuindo presentes em todas as casas com crianças na esperança de encontrá-lo.
Essa narrativa cristã se entrelaça com raízes pagãs mais antigas, ligadas a rituais romanos de fertilidade e ao solstício de inverno, quando figuras femininas voavam sobre os campos para abençoar as colheitas. Assim, a Befana é uma mistura de tradição cristã e folclore popular, representando uma velhinha bondosa, com nariz adunco, roupas remendadas e vassoura, que entra pelas chaminés deixando doces para os bons e carvão (geralmente de açúcar preto) para os travessos.
A celebração varia de região para região, mas sempre une famílias e comunidades. Em Urbania (Marche), considerada a “casa oficial” da Befana, acontece a Festa Nazionale della Befana, com desfiles, a descida da bruxa do campanário e distribuição de doces para milhares de visitantes. Em Roma, a Piazza Navona se transforma em um mercado festivo com barracas de doces, brinquedos e a chegada teatral da Befana. Já em Veneza, a Regata delle Befane reúne remadores vestidos de bruxas no Canal Grande.
Mais do que doces e brincadeiras, o Dia da Befana preserva o folclore italiano, promove a união familiar e transmite valores como generosidade, bondade e imaginação. Para as crianças, é um momento de expectativa mágica; para os adultos, uma oportunidade de reviver memórias da própria infância e reforçar tradições que fortalecem nossa identidade cultural.
Como ítalo-brasileira e ex-parlamentar italiana, vejo na Befana um símbolo que resiste ao tempo, lembrando que, mesmo na era moderna, as tradições têm o poder de unir gerações e corações. Neste dia, enquanto as crianças correm para descobrir o que a Befana deixou em suas meias, nós todos podemos sorrir e celebrar essa magia única da Itália. Viva la Befana!
