Por: MARCO FRANÇA – Sócio da Auddas, MBA pela Coppead/UFRJ, Especialista em gestão, estruturação de empresas, sucessão familiar, capital e M&A.
Em ambientes de incerteza recorrente, multiplicam-se as perguntas legítimas sobre como navegar , e mitigar, variáveis já conhecidas do cenário brasileiro: juros elevados, riscos eleitorais, impactos da transformação digital sobre o emprego, desafios de produtividade e pressão sobre preços de serviços. A esse quadro somam-se a inquietação difusa, a desconfiança institucional em relação aos três Poderes e o histórico de expansão fiscal em períodos pré-eleitorais, com reflexos sobre a dívida pública e o risco soberano.
A lista de fatores adversos é extensa, mas não exaustiva. O ponto central é outro: não existe um único Brasil, mas vários. Há o Brasil de Brasília, o Brasil do setor público e o do setor privado, o Brasil dos rincões com histórias empresariais notáveis, o das grandes corporações urbanas e o do microempreendedor que sustenta sua operação com resiliência cotidiana. Em todos esses recortes, sem exceção, há um espaço vasto, quase um “mato alto” , de melhorias operacionais e gerenciais.
Trata-se de uma economia que oscila, mas não colapsa. Nesse ambiente, prevalece quem atravessa os ciclos do PIB, seus picos e vales , com capacidade de adaptação. Ao fim de cada solavanco, há uma redistribuição de mercado: empresas menos preparadas ficam pelo caminho, enquanto as sobreviventes capturam demanda, ativos e espaço competitivo. O jogo, portanto, não é abstrato nem teórico: consiste em ser sistematicamente melhor do que o concorrente direto.
Essa superioridade raramente decorre de grandes estratégias disruptivas. Ela nasce, sobretudo, da disciplina na execução: processos bem definidos, uso consistente de ferramentas, foco em produtividade e, mais recentemente, adoção criteriosa de Inteligência Artificial. Embora amplamente acessível, essa tecnologia tende a beneficiar de forma desproporcional quem já dispõe de estruturas organizadas , processos claros, dados confiáveis e histórico operacional capaz de alimentar modelos e agentes com qualidade.
A elevada mortalidade empresarial no país não é apenas um dado estatístico. Reflete a combinação recorrente de margens comprimidas, crédito oneroso, capital de giro mal dimensionado, concorrência informal, baixa produtividade e decisões tomadas sem base informacional adequada. Pequenos e médios negócios sucumbem menos por falta de esforço e mais por ausência de método.
Em momentos de contração, a escassez expõe fragilidades: falta de caixa, ausência de processos, deficiência de indicadores e indisciplina comercial. Sobreviver, nesse contexto, já configura uma competência relevante; crescer com consistência, por sua vez, aproxima-se de uma arte operacional.
A Inteligência Artificial insere-se nesse cenário não como solução mágica, mas como vetor de amplificação. Em empresas organizadas, pode reduzir custos administrativos, elevar a qualidade do atendimento, acelerar ciclos comerciais, aprimorar previsões de demanda, apoiar decisões de precificação e fortalecer a capacitação de equipes. Em estruturas desorganizadas, tende apenas a acelerar ineficiências. A tecnologia não substitui a gestão; ao contrário, expõe e penaliza sua ausência.
Ao mesmo tempo, as distorções estruturais do ambiente de negócios são amplamente distribuídas. No universo das pequenas e médias empresas, tais entraves raramente se convertem em diferenciais competitivos , afetam a todos de maneira semelhante. O debate sobre subsídios, proteções e campeões nacionais, embora relevante, não altera a dinâmica cotidiana da maioria dos empreendedores.
Nesse contexto, a continuidade de um negócio não costuma ser definida por expectativas eleitorais isoladas. Diferentemente de agentes que operam em mercados financeiros, o empresário não dispõe de instrumentos que lhe permitam “apostar” contra o próprio ambiente em que atua. Sua principal alternativa é aprofundar o entendimento do seu mercado e buscar, de forma contínua, desempenho superior ao dos concorrentes. Afinal, eventuais melhorias macroeconômicas tendem a beneficiar todo o sistema, inclusive os competidores.
O Brasil avança, em grande medida, de forma irregular: alterna períodos de expansão com fases prolongadas de estagnação. Diante disso, variáveis sob controle ganham centralidade. Clareza na proposta de valor, eficiência operacional e produtividade deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos mínimos. A inércia cobra um preço crescente: quem não evolui perde espaço em ritmo cada vez mais acelerado.
Alguns setores já demonstraram caminhos possíveis. O agronegócio, por exemplo, consolidou ganhos expressivos de produtividade e desenvolveu mecanismos de adaptação a ambientes voláteis, oferecendo lições relevantes sobre eficiência e seleção competitiva. Em economias cíclicas, a permanência não é garantida , e tampouco a liderança. A única constante é a necessidade de evolução contínua.