Por: Fernanda lira, estrategista de branding e inovação
No Super Bowl LX, realizado em fevereiro de 2026, mais de 130 milhões
de pessoas assistiram ao mesmo palco. Um evento onde cada segundo vale ouro, onde a publicidade mais cara do mundo disputa atenção em frações de tempo. Um território historicamente ocupado por marcas que gritam. Foi nesse cenário que Bad Bunny fez o oposto: baixou o tom e ampliou o significado.
Primeiro artista solo latino e hispanohablante a conduzir quase toda a apresentação em espanhol, ele não marcou apenas uma virada cultural, marcou uma virada simbólica. O palco deixou de ser vitrine e
virou tradução de mundo. Porto Rico não apareceu como exotismo, mas como origem. A cana-de-açúcar lembrava os pilares econômicos da ilha.
A casita rural falava de pertencimento. O piriguá, a criança dormindo nas cadeiras da festa, os corpos cansados e felizes são cenas profundamente latinas, profundamente humanas.
Nada ali era aleatório. Cada referência construía um território emocional que dispensava legenda. Bad Bunny não explicou sua história. Ele a encenou.
Debaixo dessa leitura cultural, havia expectativa por posicionamentos políticos explícitos. Críticas diretas ao ICE, à política migratória americana, às fronteiras. Temas que ele já havia enfrentado publicamente em outros palcos, como o Grammy. Mas o Super Bowl pedia outra inteligência. E ele entendeu isso.
Sua escolha foi não militar agressivamente. Foi significar. No telão, a frase: “The only thing more powerful than hate is love.” Amor não como ingenuidade, mas como força política silenciosa. Amor como
linguagem capaz de atravessar bolhas, ideologias e defesas emocionais. Algo muito maior. Um recado que não confronta mas apenas convida.
No encerramento, a bola de futebol americano com a frase “Together, We Are America” fez o gesto final. América não como país, mas como continente. Um deslocamento sem agressividade. Um redesenho de fronteiras feito por símbolo, não por ataque. Inclusão sem grito.
Posicionamento sem panfleto. Um gesto que resumiu toda a estratégia. Tudo isso aconteceu no palco onde 30 segundos de publicidade custam entre US$ 8 e 10 milhões, cerca de US$ 233 mil por segundo, sem contar produção e campanhas integradas. O espaço mais disputado do entretenimento global. E Bad Bunny não comprou esse tempo. Ele ocupou culturalmente.
Como acontece com artistas do halftime show, o cachê direto é
simbólico. O ganho real está na exposição, no streaming, na conversa
global. Mas, mais do que números, está no que poucos conseguem: dominar o imaginário.
Bad Bunny não competiu com marcas multimilionárias. Ele virou o
conteúdo. Transformou o intervalo em manifesto visual e sonoro. Usou
símbolos em vez de slogans. Emoção em vez de confronto. Cultura em vez de ruído.
No fim, o que ele nos lembra é simples e raro: marca pessoal não é o que você diz sobre si. É o que o mundo entende quando você ocupa um espaço e escolhe o que não precisa ser dito.