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A quem não conhece a “gente de Brasília”

Nasci e me criei na minha amada cidade de Sobradinho, e primeira lembrança que tenho do Plano Piloto, e de que muito me orgulho, é da nossa tombada Rodoviária

Por João Cardoso*

Não sei se você também já passou por isso. Mas eu e minha família até hoje quando conseguimos viajar e damos um pulinho nas maravilhosas praias ou outro ponto turístico do Brasil e que dizemos que somos de Brasília, volta e meia nos deparamos com comentários do tipo “você conhece o presidente?” ou com súbitas inflações de cardápio e tabelas de valores e narizes tortos que dão a entender que de imediato todos que moram em Brasília pertencem ao mesmo time: políticos, ricos e indiferentes.

Mas não posso julgá-los, se têm esta reação quase que instintiva devem ter um motivo. Com 20 minutos de conversa, quando me dão oportunidade consigo ouvir desabafos e motivos pelos quais pensam isso explico que Brasília tem muito, muito mais que esse tipo de gente e acaba que essa pessoa fica nos devendo uma visita para um caldo de mocotó na minha casa ou dos meus pais na primeira oportunidade que tiver de vir a capital.

O fato que a aversão à política é um mal quase que geral, mas não vou gastar minhas poucas linhas cordialmente cedidas por este jornal com isso. Só digo que aprendi com a vida que para tudo precisamos da danada da política. Seja para comer, para abastecer o carro ou até para fugir para lua para de lá não precisar ouvir mais nada sobre política.

Mas vim aqui hoje – e me desculpe os rodeios, quem me conhece sabe que não sou muito de escrever, mas por essa moça eu topo o desafio – falar de uma menina que completa 61 anos, e que segue linda, com suas curvas, tesourinhas, pontes…Puxa como amo essa moça, dona Regina – minha esposa a quem sou devoto e mãe dos meus oito filhos – que me conceda essa licença poética, MAS EU AMO ESSA BRASÍLIA, viu gente.

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A quem não conhece a “gente de Brasília” em nossas viagens eu logo explico que quem por aqui mora também é turista quando vem ao centro da capital. Nasci e me criei na minha amada cidade de Sobradinho, e primeira lembrança que tenho do Plano Piloto, e de que muito me orgulho, é da nossa tombada Rodoviária.

Nos horários de menos fluxo, meu pai, que era motorista de ônibus, deixava a gente passar por debaixo da roleta e descer com ele. E nunca vou me esquecer da primeira vez que fui. Aquele espaço aberto, Asas Norte e Sul muito menos urbanizadas do que são hoje, ruas bem mais vazias…E uma coisa que eu acho linda e acredito que seja o diferencial da nossa Brasília em relação aos lugares, suas enormes áreas e vias abertas, jardins bem cuidados. Essas áreas verdes, com espaço de respiração que só de olhar já nos trazem mais tranquilidade do que em qualquer outra metrópole. Eita que me lembrei que volta e meia papai também chegava lá em casa com aquele pacotinho manchado de gordura que já sabíamos: pastel da Viçosa! Diz aí, tem pastel melhor? Passei lá esses dias que fomos conferir uma demanda e provei um. Não é que continua a mesma coisa?

Nossa adolescência, minha e dos meus irmãos, também obedeceu ao mesmo fluxo de descer para rodoviária com papai. Fazíamos um pacotinho de pão com alguma coisa dentro e o destino quando dava nos dias de folga dos estudos era bater perna no Conjunto Nacional. Quando tínhamos um troco tomávamos um sorvete, e de noite descer para o famoso Bobódramo de Sobradinho, point de curtição da época para ouvir a música dos carros e dançar com os amigos.

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Ainda a quem não conhece a “gente de Brasília” também explico que não conheço o presidente, que não é alguém com que a gente costuma cruzar na padaria. Aliás, mesmo sendo deputado distrital da base aliada do Governo do Distrito Federal nunca tive a oportunidade de conversar mais que cinco minutos com o governador do DF ao longo de todo mandato até agora, imagine só…

Mas em minhas conversas com os de fora de Brasília, conto saudosamente que tive a oportunidade, no passado remoto dos meus passeios escolares de brincar de escorrega nas conchas do Congresso Nacional com os amigos de escola. Algo que acredito que hoje não seja mais possível tendo em vista o perigo que isso era e nós nem imaginávamos na época. Oh tempinho bom…

O Congresso Nacional e a Esplanada dos Ministérios continuam sendo meus locais favoritos na capital, os quais sempre que recebemos visitas de fora do Distrito Federal que ainda não conhecem Brasília buscamos levar para conhecer e claro, a visita não pode terminar em um local diferente que a pastelaria da Viçosa com um bom caldo de cana com gostinho de infância.

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Busco convencer a gente que não é de Brasília, que por aqui temos gente como a gente de qualquer lugar. Gente trabalhadora, sonhadora, nova, velha, criativa, costumeira, boas, não tão boas…Gente que merece respeito e força para lutar e viver dias melhores após essa guerra sanitárias que estamos vivendo contra a Covid-19.

Aproveito sempre também para dizer a elas que de uma coisa eu tenho certeza – e aqui coloco um pouco do meu lado professor de Geografia, Brasília ainda é uma metrópole muito nova, um bebê em relação a outras capitais. Foi sonhada e planejada com muito carinho e certamente ainda será plano de fundo – e que plano de fundo né minha gente – de muitas conquistas e mudanças transformadoras para os brasileiros e para a gente que aqui vive: os brasilienses.

*João Cardoso é brasiliense e deputado distrital

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