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Na prisão, vereador Jairinho passa mal e mãe de garoto Henry chora

Isolado em uma cela, Jairinho tem repetido que é inocente e que o menino foi vítima de uma queda. Ele reproduz a tese de sua defesa, de que acidentes domésticos similares já aconteceram

Tânia Rego/Agência Brasil

ANA LUIZA ALBUQUERQUE E CATIA SEABRA
RIO DE JANEIRO

Preso no Complexo de Gericinó, em Bangu, zona oeste do Rio de Janeiro, o vereador Jairo Souza Santos Júnior, conhecido como Dr. Jairinho (Solidariedade), 43, já recebeu atendimento médico pelo menos duas vezes após sentir-se mal.

Por protocolo de segurança, Jairinho teve que ser atendido no ambulatório médico da unidade em que está preso. Suspeito de ter espancado e matado o enteado Henry Borel, 4, o vereador não foi encaminhado à UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do interior do complexo porque havia o risco de que ele fosse agredido por outros detentos.

Isolado em uma cela, Jairinho tem repetido que é inocente e que o menino foi vítima de uma queda. Ele reproduz a tese de sua defesa, de que acidentes domésticos similares já aconteceram.

A mãe de Henry, Monique Medeiros, 32, encaminhada ao Instituto Penal Ismael Sirieiro, presídio feminino em Niterói (RJ), tem chorado copiosamente, segundo fonte ouvida pela reportagem. Também sozinha na cela, ela pede atenção e grita dizendo que quer falar com as pessoas.

Monique e Jairinho foram presos temporariamente na quinta-feira (8), sob suspeita de homicídio qualificado, após decisão judicial favorável a representação movida pelo Ministério Público do Rio de Janeiro. O órgão pediu a prisão por 30 dias, já que o crime é considerado hediondo.

Ambos estão isolados por questão de segurança, diante do risco de serem agredidos por outros detentos, e em função da quarentena de 14 dias, devido à pandemia da Covid-19.

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No pedido, o promotor Marcos Kac diz que a prisão é necessária para possibilitar o aprofundamento das investigações policiais. Jairinho e Monique são suspeitos de tentar atrapalhar a apuração sobre a morte de Henry.

Um mês antes da morte do menino, a babá Thayná Ferreira, 25, relatou a Monique que Henry estava sendo agredido pelo padrasto. À polícia, no entanto, ela disse que nunca notou nada de anormal na relação entre o casal e o menino.

O delegado Henrique Damasceno defende que a versão falsa contada à polícia pela babá é um dos indícios que demonstram que o casal tentou interferir nas investigações.

Tanto a babá quanto a faxineira Leila Rosângela Mattos, 57, tiveram um encontro com o advogado do casal dias antes de prestarem depoimento à polícia. Elas mesmas contaram que a irmã de Jairinho pediu que elas fossem ao escritório de André França Barreto no dia 18 de março.

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Um motorista passou para pegá-las e, chegando lá, elas falaram com ele separadamente. Ambas relatam aos investigadores que ele perguntou sobre a rotina e a relação da família. Segundo Thayná, o advogado disse que ela seria intimada e que era “para ela dizer somente a verdade”.

Jairinho pode ser o primeiro vereador cassado no Rio

Preso nesta semana por suspeita matar o enteado de 4 anos, o vereador carioca Dr. Jairinho (Solidariedade) pode ser o primeiro parlamentar cassado pela Câmara do Rio. O caso do menino Henry despertou um choque tão grande entre os colegas que o Legislativo deve caminhar rumo a esse desfecho – que é até hoje inédito, mesmo com o histórico de prisões de vereadores nos últimos 20 anos.

Ex-ocupantes das cadeiras do Palácio Pedro Ernesto, nomes como Nadinho de Rio das Pedras, Jerominho, Cristiano Girão e Luiz André Ferreira da Silva, o Deco, foram presos no âmbito de investigações que miraram envolvimentos com grupos milicianos. Apesar de medidas temporárias impostas pela Casa, nenhum deles perdeu efetivamente o mandato por decisão dos colegas.

O caso de maior impacto para o político criminoso foi o de Girão, que perdeu as funções por ter passado mais de 120 dias ausente da Câmara – afinal, estava preso – em 2009. Foi, contudo, um mero cumprimento do regimento interno.

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Com Jairinho, a brutalidade da morte de Henry levou os vereadores a sugerirem medidas que vão além dos trâmites tradicionais da Casa. Atualmente, ele está com os salários suspensos e será afastado se tiver a prisão estendida – a decisão impõe detenção temporária de 30 dias, enquanto a Câmara prevê o afastamento a partir do 31º dia de ausência.

Como é quase certo que ele ficará pelo menos 120 dias preso, o Legislativo poderia seguir o caminho natural de aguardar esse prazo para cassar o mandato. Há, no entanto, um movimento que busca antecipar essa punição.

“É o mínimo que esta Casa pode fazer diante de tamanha barbárie. São muitas as evidências, não é possível conviver numa casa de leis com alguém acusado de um crime tão cruel e covarde”, aponta a vereadora Teresa Bergher (Cidadania), que está no quinto mandato e preside a Comissão de Direitos Humanos. “Acho que ele deveria ter sido afastado imediatamente, e não só daqui a um mês Essa resposta à sociedade chega tarde. A Câmara precisa rever as regras do Conselho de Ética, que são muito brandas.”

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Já afastado do Conselho de Ética, do qual fazia parte, Jairinho deu lugar a Luiz Ramos Filho (PMN), que também cobra uma resposta “que com certeza virá”: “Estamos todos muito chocados com este caso.”

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Assim como os ex-colegas presos, Jairinho é suspeito de envolvimento com milicianos; o nome dele aparece na CPI das Milícias, finalizada em 2008 pela Assembleia Legislativa do Rio

Seu pai, o ex-deputado Coronel Jairo (PSC), também é mencionado no relatório e foi preso em 2018 no âmbito da operação Furna da Onça, que focou no suposto pagamento de “mesada” para parlamentares aprovarem projetos de interesse do governo estadual, no âmbito dos esquemas do ex-governador Sérgio Cabral (MDB). (Com agências)






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