Apenas dois dias depois de acertar um acordo para resolver a grave crise de Honduras gerada pelo golpe de Estado, o presidente deposto Manuel Zelaya e o Governo interino de Roberto Micheletti começaram a discordar sobre os termos e prazos do pacto.
O ponto da discórdia voltou a ser a possibilidade da volta ao poder do líder derrubado, que tinha bloqueado durante quase sete dias as negociações, até que nesta semana uma missão americana e da Organização dos Estados Americanos (OEA) fizeram com que as partes chegassem a um acordo.
Esta acordo estabelece que o Congresso deverá decidir sobre a volta ou não de Zelaya ao poder.
O governante deposto assegurou ontem que não aceita que sua Presidência seja colocada em dúvida, já que foi eleito pelo povo.
Além disso, afirmou que se o Legislativo votar contra sua volta ao poder este acordo estará “enganando a comunidade internacional e o povo hondurenho”.
No entanto, o Governo interino, em um documento sobre o tratado distribuído à imprensa, afirma que “a restituição de Zelaya não é automática”, já que “é necessário um voto propício do Congresso”, e que o pacto “não faz nenhum tipo de recomendação sobre qual decisão o Congresso deve tomar”.
O representante do presidente deposto na comissão de verificação do acordo, Jorge Reina, indicou hoje que o pacto estará quebrado caso o Congresso não apoie a volta de Zelaya ao poder.
Esta postura já tinha sido insinuada ontem pelo próprio Zelaya em um pronunciamento por rádio direto da Embaixada do Brasil na capital hondurenha, onde está refugiado desde seu retorno ao país, em 21 de setembro.
Além disso, Jorge Reina insistiu em que “até a quinta-feira deve estar tudo definido”, já que nesse dia deve estar formado o “Governo de Unidade e Reconciliação Nacional”, previsto no acordo que, no entanto, não indica quem deve presidi-lo.
Em resposta à postura de Zelaya, a vice-chanceler do Governo interino, Martha Alvarado, acusou o governante deposto de querer “desestabilizar” as eleições convocadas para 29 de novembro.
“Esta é uma tática muito conhecida a fim de desestabilizar o processo eleitoral”, disse Alvarado à Agência Efe.
O enviado a Honduras da OEA, Víctor Rico, reiterou ontem em entrevista à Efe antes de partir para Washington que “o Congresso hondurenho é soberano para tomar uma decisão”, mas acrescentou que os deputados “sabem muito bem o que a comunidade internacional pensa”.
“Do ponto de vista de grande parte da comunidade internacional, o final da crise acontecerá quando o presidente Zelaya for restituído”, afirmou.
O Exército, que expulsou Zelaya do país em 28 de junho após sua tentativa de realizar uma consulta para convocar uma Assembleia Constituinte considerada ilegal por vários poderes do Estado, manifestou seu acatamento a qualquer decisão adotada pelas autoridades civis.
“Nós não opinamos sobre esse tipo de situação. Nós só acatamos as disposições”, ressaltou à Efe o porta-voz das Forças Armadas, o coronel Ramiro Archaga.