JOSÉ HENRIQUE MARIANTE
FOLHAPRESS
A União Europeia quer ser mais agressiva a partir da COP31, prevista para novembro, na Turquia. Reunião informal entre ministros de Meio Ambiente e Clima nesta sexta-feira (6), no Chipre, discutiu uma estratégia de ação que inclui financiamento, programas de desenvolvimento e até a imposição de tarifas na busca de objetivos climáticos.
No ano passado, em Belém, o bloco foi um dos principais patrocinadores da proposta de elaboração de um mapa do caminho para o fim dos combustíveis fósseis. Ao lado de nações insulares, diretamente impactadas pelo aquecimento global, e países como Colômbia, a UE pedia a inclusão do plano na declaração final da conferência.
Bombardeada por uma oposição difusa, mas claramente liderada pelos petroestados, a estratégia fracassou. A presidência brasileira da COP30 prometeu então encaminhar uma proposta em separado sobre o assunto durante seu mandato neste ano. O governo Lula também busca um plano nacional.
Segundo rascunho que seria levado ao encontro de ministros em Nicósia, “a UE enfrenta dificuldades crescentes para obter apoio internacional e traduzir seu alto nível de ambição em resultados concretos nas negociações”. O teor do documento foi revelado pela agência Reuters, na quinta-feira (5).
Além disso, o desfavorável cenário geopolítico atual teria contribuído para “uma sensação de grande isolamento na fase final dos debates” em Belém. A avaliação aponta ainda para falta de disponibilidade de ferramentas comerciais e financeiras que pudessem “reforçar posições [da UE] e definir incentivos nas salas de negociação e fora delas”.
Integrante da delegação francesa liderada pela ministra de Transição Ecológica, Monique Barbut, declarou antes do encontro que a UE deveria ser “menos ingênua, mais assertiva e mais transacional se quiser ter impacto nas negociações”.
“Estamos em um mundo mais difícil, onde a UE, quando se trata de negociações climáticas, está mais isolada”, disse o assessor de Babut a jornalistas.
Outro argumento usado pelos franceses em defesa desse posicionamento mais agressivo é a constatação de que o bloco, no fim das contas, é o principal ator do financiamento climático, por meio de programas de desenvolvimento e incentivo à descarbonização em outros países.
Um uso mais pragmático dessas políticas é defendido enquanto os EUA exercem pressão sobre a Europa e suas regulações ambientais, sem falar nas ameaças de invasão territorial. Donald Trump quer o bloco comprando mais gás natural americano e exige uma série de flexibilizações, que vão de composição de alimentos a emissões de veículos.
Também se discute se o bloco deveria continuar solidário com países que não estão cumprindo o Acordo de Paris. No mundo real, porém, Ursula von der Leyen, chefe da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu, na semana passada anunciavam tratado de livre comércio com a Índia.
Nesta semana, foi a vez da Alemanha assinar compromisso de compra de hidrogênio verde com a Arábia Saudita.
De acordo com o Climate Action Tracker, as metas estabelecidas pelo governo indiano são “altamente insuficientes”, e as do governo saudita, “criticamente insuficientes”.
Outro ponto de contradição no discurso europeu são os retrocessos ambientais do próprio bloco, justificados sobretudo pela aguda geopolítica atual. Nos últimos meses, regras sobre pesticidas e uso da terra foram flexibilizadas, assim como o banimento do motor a combustão em veículos particulares foi adiado de 2035 para 2040.
Presidente da COP30, André Corrêa do Lago afirmou à Reuters que a percepção sobre os resultados da conferência refletem as prioridades de cada país.
“A palavra ambição não pertence a um vocabulário que existe apenas na UE”, disse o diplomata brasileiro. “Quando se fala em ambição na UE, trata-se de mitigação. Quando se fala em ambição na Índia, trata-se de finanças. Quando se fala em ambição em outros países, trata-se de tecnologia.”