JOÃO CAMINOTO
FOLHAPRESS
A Reunião Nacional (RN) de Marine Le Pen ainda saboreava a conquista nas eleições senatoriais da França de domingo (27) quando formou, pela primeira vez, uma bancada parlamentar na câmara alta e as pesquisas mais recentes que dão à candidata mais de 33% no primeiro turno da eleição presidencial, com vitória projetada no segundo turno contra qualquer adversário.
Foi quando uma bomba editorial atingiu Jordan Bardella, 31, presidente do partido, principal aposta política da ultradireita e o nome que Le Pen indica como seu futuro primeiro-ministro.
Na segunda-feira (28), o site de notícias Mediapart publicou reportagem atribuindo a Bardella dezenas de mensagens privadas com conteúdo antissemita e conspiratório, escritas de 2013 a 2015 quando era jovem militante da Frente Nacional (FN), antecessora do RN, na periferia de Paris. Ele afirma que o conteúdo é falso, o que o veículo contesta.
Bardella tinha entre 17 e 18 anos, mas já era quadro ativo: aderiu ao FN em 2012, aos 16, e chefiou a federação departamental de Seine-Saint-Denis em 2014.
As mensagens reproduzem o repertório clássico do antissemitismo conspiratório. Segundo a reportagem, ele escreveu que “os bancos são todos controlados por judeus”, que “o judeu deve dominar os outros povos, esmagá-los e roubá-los” e que o objetivo seria “uma Nova Ordem Mundial dominada por Israel”.
Atacou ministros do ex-presidente François Hollande por colocarem “Israel e o interesse bancário acima dos interesses franceses”, elogiou o ideólogo antissemita Alain Soral e propagou teorias conspiratórias sobre o 11 de Setembro.
Um trecho das mensagens é especialmente explosivo a sete meses da eleição presidencial, marcada para abril. “A política é comunicação”, escreveu Bardella em 2013.
O partido, dizia ele, permanecia “fiel à sua ideologia de base” desde a fundação por Jean-Marie Le Pen, em 1972 mas o discurso “mais polido” de Marine Le Pen fazia “o número de eleitores explodir”. O que importava não era mudar de convicções; era que ninguém soubesse quais eram. É a descrição, feita de dentro, do que a oposição chama de “desdiabolização” de fachada.
NEGATIVA E CONTRAOFENSIVA
Bardella negou tudo. Classificou as mensagens como “falsificações grosseiras” e anunciou ação por difamação. Nesta terça-feira (29), disse aos parlamentares do RN que enfrenta os “prelúdios de uma guerra total” contra o partido.
Le Pen declarou “total confiança” em Bardella, chamou a investigação de operação de espionagem suja e disse que “nenhuma pessoa normalmente constituída pode acreditar numa doidice dessas”.
O Mediapart rebateu: Antton Rouget, jornalista investigativo e um dos autores da reportagem, afirmou que os documentos “são escritos de próprio punho por Bardella” e que o site “fará a demonstração da exatidão do que publicou”.
PRIMEIRA BANCADA NO SENADO
A crise eclipsou uma semana de avanço institucional para o RN. Nas eleições do Senado no domingo, a aliança entre o RN e a UDR de Éric Ciotti elegeu 15 senadores acima do mínimo de 10 exigido para formar um grupo parlamentar.
É a primeira vez que a ultradireita constitui uma bancada na câmara alta francesa. A direita e o centro mantiveram a maioria, mas o avanço do RN redesenhou o equilíbrio de forças. A França Insubmissa (LFI), partido de esquerda radical liderado por Jean-Luc Mélenchon, elegeu seus dois primeiros senadores, dez anos após a sua fundação.
O Senado francês tem 348 membros eleitos por sufrágio indireto votam cerca de 160 mil “grandes eleitores”, na maioria vereadores e prefeitos. Pesa menos que a Assembleia Nacional, mas tem poder de veto em reformas constitucionais. Com um grupo, o RN ganha tempo de fala, representação em comissões e peso em negociações.
FACHADA SOB ATAQUE
É essa marcha de institucionalização que a investigação do Mediapart coloca em risco. O RN investiu anos apagando a herança de Jean-Marie Le Pen, expulsando quadros comprometidos e cultivando uma imagem de partido de governo.
Bardella era a peça central dessa vitrine: em 2025, fez uma visita inédita a Jerusalém e foi recebido pelo governo de Binyamin Netanyahu. A reportagem sugere que a fachada foi montada com plena consciência do que havia por trás.
Yonathan Arfi, presidente do Crif (Conselho Representativo das Instituições Judaicas da França), disse que, se confirmados, os escritos são “uma demonstração dos limites da desdiabolização do RN”. Para Arfi, o “DNA” do partido “não mudou fundamentalmente”.
O ex-primeiro-ministro gaullista Dominique de Villepin, candidato à Presidência pelo movimento La France Humaniste, vê nos escritos a marca de uma tradição que o RN nunca abandonou: “Esses termos retomam os mais antigos clichês do antissemitismo, os que associam judeus ao dinheiro, aos bancos e a um poder oculto. Esse imaginário de ódio preparou, na nossa história, a perseguição e o crime.”
À esquerda, Mélenchon pediu que Bardella “demonstre sua oposição aos textos que lhe são atribuídos”. A líder ecologista Marine Tondelier pediu a demissão do presidente do RN de todas as funções.
O próprio Alain Soral, sem querer, forneceu um elemento à narrativa: ao ver Bardella publicar uma foto com um ministro israelense, em 2025, comentou nas redes: “Quando penso que eu o conheci revisionista” termo que designa negacionistas do Holocausto. “Os que viraram a casaca são sempre os melhores lacaios dos judeus.”
A sete meses da eleição presidencial, o RN enfrenta um paradoxo: o maior avanço institucional de sua história e, ao mesmo tempo, uma crise de credibilidade que ameaça o projeto de respeitabilidade construído ao longo de uma década.
A aposta é que a ação judicial e o discurso de “guerra total” convençam o eleitorado de que se trata de armação. Mas as pesquisas ainda não capturam o impacto das revelações. E o Mediapart prometeu publicar os documentos.
Ultradireita forma bancada no Senado da França pela 1ª vez, em meio a acusações de antissemitismo
Site francês publicou mensagens com conteúdo antissemita e conspiratório atribuídas ao líder de partido de extrema direita, que afirma que o conteúdo é falso
Palácio Bourbon, em Paris. Foto: Bertrand GUAY / AFP