FERNANDA PERRIN
FOLHAPRESS
O Centro Metropolitano de Detenção (MDC na sigla em inglês) figura para os americanos como Tremembé para os brasileiros. Pela prisão localizada no Brooklyn, em Nova York, passaram réus como os músicos Sean “Diddy” Combs e R. Kelly, e Ghislaine Maxwell, parceira de Jeffrey Epstein. Desde sábado (3), um novo nome se somou a esta lista: o ditador venezuelano Nicolás Maduro.
O local é usado sobretudo para abrigar pessoas aguardando julgamento na Justiça federal em Nova York.
Se condenados, são enviados para outras instituições. Atualmente, há 1.336 detentos (homens e mulheres), segundo o site oficial do MDC -entre eles, Luigi Mangione, acusado de assassinar o CEO da UnitedHealthcare.
Maduro não é o primeiro chefe de Estado a ser detido ali. O ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão por tráfico de drogas, ficou na MDC enquanto transcorria seu julgamento. Em dezembro, Donald Trump concedeu a ele um perdão presidencial.
A única prisão federal da maior cidade americana fica próxima a uma via elevada expressa, e seu entorno lembra a região do Minhocão, no centro de São Paulo. Há lava-rápidos, borracharias e postos de gasolina. Um complexo de galpões industriais antigos que hoje abriga restaurantes, cafés e lojas descoladas é vizinho do MDC. De metrô, fica a cerca de uma hora do centro de Manhattan.
Além dos réus celebridades, a prisão também costuma frequentar o noticiário americano em razão de denúncias de más condições, como superlotação e falta de pessoal, e violência. Há casos de juízes que se recusaram a enviar pessoas para o MDC ou que reduziram a pena de detentos que passaram pelo local.
Em 2024, dois detentos foram mortos a facadas e, de 2021 a 2024, ao menos quatro se mataram, de acordo com levantamento da agência Associated Press. De 2017 a 2018, três oficiais da prisão foram condenados por violência sexual contra detentas. Outro caso notório ocorreu durante o inverno de 2019, quando a prisão ficou uma semana sem luz e sem aquecimento após uma queda de energia.
No ano passado, a prisão também foi alvo de um protesto organizado por políticos de Nova York contrários ao uso do local pelo governo Trump para deter imigrantes detidos pelo ICE.
“Em vez de dar continuidade aos esforços do governo Biden para reforçar o quadro de funcionários e reduzir as restrições de confinamento no MDC, o governo Trump reverteu essas melhorias e agora está sobrecarregando ainda mais uma unidade já insegura e com falta de pessoal, com dezenas de imigrantes sem histórico criminal”, disse o deputado federal Dan Goldman na ocasião.
A reportagem esteve no local na manhã deste domingo (4). Grades de contenção foram colocadas na rua para impedir a circulação em frente à prisão. Uma pequena área foi reservada a jornalistas. Algumas pessoas passavam pelo local e faziam fotos e vídeos.
O venezuelano Esteban Chacin, 29, foi um deles. O jovem diz que vive em Nova York há nove anos e mora nas proximidades. “Pensar que Maduro está bem ali me faz sentir muitas emoções diferentes. Eu praticamente nasci e cresci durante o chavismo. Se eu te falar que durante 28 anos houve um único partido, isso te diz algo sobre o estado da democracia”, disse.
Ao mesmo tempo, ele se mostra preocupado com a exploração de recursos do seu país -o petróleo venezuelano foi um dos principais tópicos do discurso de Donald Trump após o ataque.
Mas, no geral, Chacin afirma estar esperançoso novamente com o futuro de seu país, especialmente na liderança de Maria Corina Machado -embora o presidente americano já tenha sinalizado que não a vê como uma opção para comandar Caracas.
Por volta das 11h no horário local (12 de Brasília), um pequeno grupo de manifestantes com cartazes do partido pelo socialismo e pela liberação (PSL na sigla em inglês) se reuniu no local. Após negociação com a polícia, eles ocuparam parte da calçada na via perpendicular à rua da prisão.
“Independentemente da sua opinião sobre o governo Maduro, o ataque em 3 de janeiro foi uma flagrante violação da lei. A História mostra que as intervenções americanas nunca são em benefício dos trabalhadores daqui ou dos países atacados”, disse à reportagem o nicaraguense Roger Calero, 56.
“Essa ação caminha lado a lado com o que está sendo feito contra imigrantes nos EUA. As mesmas violações que atribuem ao governo de Maduro estão sendo feitas contra os direitos de imigrantes nos EUA.”