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Torcedor congoles leva Lumumba à Copa e cobra reparação

Michel Nkuka Mboladinga chamou atenção nas arquibancadas da Copa de 2026 ao se apresentar como Patrice Lumumba, gesto que evocou a luta anticolonial e a situação no Congo.

Redação Jornal de Brasília

24/06/2026 17h55

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Foto: Gabriel BOUYS / AFP

Nas arquibancadas da Copa do Mundo de 2026, o torcedor Michel Nkuka Mboladinga chamou atenção ao performar Patrice Lumumba, ex-primeiro-ministro da República Democrática do Congo e símbolo da luta anticolonial em África. Imóvel durante a partida, ele reproduziu a pose da estátua de Lumumba instalada em Kinshasa e levou a imagem para o jogo entre RD do Congo e Colômbia, em Guadalajara, no México, na terça-feira (23).

Segundo o relato, Mboladinga tentou entrar nos Estados Unidos para ver a estreia de seu país no torneio, mas foi barrado por causa da epidemia de ebola que afeta o Congo. Sem o visto norte-americano, ele deve retornar a Kinshasa, onde vive, e assistir ao próximo jogo dos Leopardos, contra o Uzbequistão, no sábado (27).

A performance foi interpretada por especialistas ouvidos pela Agência Brasil como um gesto de rememoração do legado de Lumumba e de crítica ao apagamento histórico. A coordenadora do Grupo de Pesquisa Pensamento Negro Contemporâneo da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFRB), Maria do Carmo Rebouças, afirmou que a trajetória de Lumumba expressa a luta pela autodeterminação, soberania política e controle dos próprios recursos. Para ela, o ato de Mboladinga desloca o futebol do entretenimento para a reflexão sobre o passado colonial.

O professor Felipe Paiva, da Universidade Federal Fluminense (UFF), destacou que a performance também reverencia outras histórias de luta anticolonial no continente africano, citando nomes como Thomas Sankara, em Burkina Fasso, e Amílcar Cabral, em Cabo Verde. Já o professor angolano Nuno Carlos de Fragoso Vidal, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), observou que o gesto chama atenção para a situação atual do Congo, descrita por ele como uma guerra esquecida, com milhares de mortos ao longo de anos, ingerência externa, pilhagem e descaso internacional.

Durante o jogo contra a Colômbia, Mboladinga fez ainda um movimento único, levando um dedo à têmpora e a mão esquerda à boca. O gesto foi associado ao silêncio da comunidade internacional diante da crise no país africano, marcado por guerras e pela exploração de recursos naturais. O texto também menciona que esse tipo de manifestação tem sido repetido por jogadores da diáspora africana, como Nico Williams, espanhol de ascendência ganesa.

A reportagem recupera a trajetória de Lumumba, eleito em 1960 como o primeiro governante do Congo após a independência da Bélgica. Símbolo do pan-africanismo, ele defendia que as riquezas do país fossem geridas em favor dos congoleses. Após sua morte, o Congo mergulhou em décadas de conflitos pelo controle da exploração mineral. Lumumba foi assassinado em meio às tensões da Guerra Fria, com cumplicidade de autoridades da Bélgica e dos Estados Unidos, sob acusação de manter relações com a União Soviética. O corpo foi dissolvido em ácido.

O texto também lembra que, em 2022, a Bélgica reconheceu a “responsabilidade moral” no crime e devolveu à família de Lumumba um dente com coroa de ouro, guardado por um policial como relíquia. Na ocasião, o então primeiro-ministro belga, Alexander de Croo, afirmou que um homem foi assassinado por suas convicções políticas, palavras e ideais.

Ao abordar a história do Congo, os especialistas citados defenderam ainda responsabilidade de países como Bélgica, Brasil e Estados Unidos diante do legado colonial em África. Para Vidal, a Bélgica deveria demonstrar mais interesse na situação e liderar uma agenda internacional por paz e desenvolvimento, enquanto países formados pela diáspora, como Brasil e Estados Unidos, teriam obrigação moral de pautar essa agenda.

Com informações da Agência Brasil

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