O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou na segunda-feira, 9, que a Europa precisa se preparar para enfrentar novos confrontos com os Estados Unidos.
Em entrevista a um grupo de sete jornais europeus – entre eles o francês Le Monde, o espanhol El País e o britânico The Economist -, publicada nesta terça-feira, 10, Macron foi questionado sobre o sentimento na Europa após a tentativa do presidente dos EUA, Donald Trump, de anexar a Groenlândia. Segundo ele, à medida que o “pico da crise” diminui, cresce uma espécie de “alívio covarde”.
“Há ameaças e intimidações. E então, de repente, Washington recua. E pensamos que tudo acabou. Mas não acredite nisso nem por um segundo”, afirmou. “Todos os dias, surgem novas ameaças à indústria farmacêutica, à tecnologia digital…”
Para o presidente francês, a Europa não deve recuar nem tentar chegar a um acordo a cada “ato claro de agressão”. “Tentamos essa estratégia durante meses; não está funcionando. Mas, acima de tudo, ela leva estrategicamente a Europa a aumentar sua dependência”, disse. Como exemplo, ele citou o setor de energia, ao apontar que os europeus substituíram a dependência da Rússia por uma dependência dos EUA, que hoje fornecem 60% do gás natural liquefeito consumido na região.
As declarações foram feitas três dias antes de uma reunião entre chefes de Estado e de governo europeus para discutir competitividade, prevista para quinta-feira, 12, em Bruxelas.
Em outro trecho da entrevista, Macron afirmou que o mercado global está “cada vez mais receoso do dólar americano” e que este é o momento de “desafiar a hegemonia do dólar”. “Vamos oferecer uma dívida europeia. Para todos os investidores do mundo, um Estado democrático governado pelo Estado de Direito é um grande atrativo. E quando olho para o mundo como ele é, temos a China, que é um regime autoritário. Por outro lado, temos os EUA, que estão se afastando cada vez mais do Estado de Direito”, disse.
‘Mundo em desordem’
Macron também afirmou que a Europa enfrenta desafios imensos em um “mundo em desordem”. “Os EUA, que pensávamos que garantiriam a nossa segurança para sempre, estão agora a pôr em causa essa segurança. A Rússia, que deveria fornecer-nos energia a baixo custo indefinidamente, deixou de o fazer nos últimos três anos. E a China, outrora um mercado de exportação para muitos, tornou-se um concorrente cada vez mais feroz”, disse.
O presidente francês afirmou ainda que defende “uma Europa mais soberana” desde o início do seu mandato. Segundo ele, a “mudança conceitual” já ocorreu, e o bloco deu passos antes impensáveis, como a ampliação da capacidade de defesa europeia. “No entanto, não estamos no ritmo certo e não estamos na escala certa”, ponderou.
Estadão Conteúdo