Trata-se do primeiro revés sério sofrido no calendário firmado em outubro pelas duas Coréias, Estados Unidos, China, Rússia e Japão, os países envolvidos nas negociações multilaterais.
Segundo este acordo, a Coréia do Norte devia desmantelar as três principais instalações da central de Yongbyon, o maior complexo nuclear do país, e entregar à comunidade internacional uma lista completa de sua capacidade nuclear em troca de ajuda energética avaliada em um milhão de toneladas de petróleo pesado.
Mas o processo está há semanas estagnado devido às divergências, principalmente entre Estados Unidos e Coréia do Norte, em torno da possibilidade de que o regime comunista conte com um programa de enriquecimento de urânio além do já conhecido programa de plutônio.
Washington assegura que Pyongyang também está desenvolvendo um programa nuclear baseado em urânio e que este deve constar em sua declaração, enquanto o regime norte-coreano nega esta informação.
Na quinta-feira, o ministro de Assuntos Exteriores sul-coreano, Song Min-soon, reconheceu que o processo de desnuclearização enfrentava “sérios obstáculos”. Ele previu que o prazo da entrega da lista poderia passar sem avanços.
Os governos de Estados Unidos e Japão lamentaram a negativa de Pyongyang a cumprir os prazos estipulados nas negociações. Questões menores também estão minando a colocação em prática dos acordos de fevereiro.
Uma delas é a divergência entre Pyongyang e Washington sobre a quantidade do plutônio que a Coréia do Norte produziu, já que o primeiro assegura ter fabricado 30 quilos, contra os 50 quilos calculados pelos Estados Unidos.
Outro destes obstáculos no processo são os atrasos na entrega da ajuda energética internacional, segundo denúncia do regime comunista. Neste sentido, Hyun Hak-bong, diretor do escritório de Assuntos Americanos do Ministério de Assuntos Exteriores norte-coreano, assegurou na quinta-feira que o desmantelamento das usinas nucleares teria atrasos, já que os prazos para a entrega da ajuda energética não estavam sendo cumpridos.
A Coréia do Norte informou hoje aos Estados Unidos que está reduzindo o pessoal dedicado a desmantelar suas instalações nucleares para desacelerar o processo, segundo fontes diplomáticas citadas pela agência japonesa Kyodo.
No entanto, o desmantelamento das instalações nucleares norte-coreanas estava se desenvolvendo até agora de forma satisfatória, acrescentou a fonte.
Neste contexto de incerteza, tomará posse o novo presidente da Coréia do Sul, Lee Myung-bak, de perfil conservador, que já anunciou uma política mais dura em relação à Coréia do Norte que a realizada nos últimos cinco anos pelo atual presidente, o liberal Roh Moo-hyun.
Lee Myung-bak assegurou que não haverá mais entregas de ajuda econômica até que a Coréia do Norte abandone seu programa nuclear. Ele também defende uma maior colaboração com Washington, depois que o atual presidente sul-coreano, ao tentar se aproximar da Coréia do Norte, se distanciou dos Estados Unidos.
Esta possibilidade, de acordo com os analistas, poderia levar a Coréia do Norte a radicalizar suas posturas e acabar com os momentos de distensão destes últimos meses. Alguns analistas afirmam que a revitalização do processo de desnuclearização da península coreana passa pela convocação de uma terceira cúpula presidencial entre as duas Coréias, enquanto outros apostam em um encontro multilateral que inclua também os Estados Unidos e a China.