A decisão de um juiz de Nova York de suspender o embargo que pesava sobre as contas do Banco Central argentino no Federal Reserve (FED) deu hoje um alívio à Argentina, mas não diminuiu o confronto entre o Governo e o presidente da máxima autoridade monetária.
O ministro da Economia da Argentina, Amado Boudou, e o presidente do Banco Central, Martín Redrado, confirmaram a suspensão do embargo, mas ofereceram versões diferentes sobre os motivos que levaram o juiz Thomas Griesa de Nova York a tomar sua decisão.
Após uma reunião com os advogados do Banco Central e dos que solicitaram o embargo, Griesa suspendeu a sanção que tinha ditado na terça-feira.
O juiz tinha bloqueado na terça-feira US$ 1,7 milhão das contas do Banco Central argentino no Federal Reserve a pedido dos fundos de investimento Elliot e Dart, que reivindicam o pagamento de bônus soberanos argentinos não-pagos desde 2001.
Para o titular de Economia, o levantamento da sanção permite que “Argentina possa levar adiante a operabilidade e o funcionamento de seu Banco Central” e não tem relação com a polêmica provocada pela negativa de Redrado a acatar a decisão do Governo de utilizar reservas para o pagamento de dívida.
Para o presidente do Banco Central, no entanto, a decisão de Griesa foi possível porque se demonstrou a autonomia e independência da instituição que lidera contra o Governo argentino.
“O que se deve demonstrar é que o Banco Central tem critérios independentes e não é um substituto da Tesouraria”, afirmou.
“Aqui estava em jogo não só a decisão de embargar fundos argentinos nos EUA e no mundo. Por esse motivo é importante que o Congresso proteja a independência do Banco Central porque se não todos os fundos podem estar em risco”, disse Redrado.
No entanto, lembrou que o processo judicial nos EUA ainda não terminou e que na próxima quarta-feira haverá um pronunciamento definitivo do juiz.
Apesar de que tanto o Governo como o Banco Central acreditavam que Griesa suspenderia o embargo, o nível de crispação subiu de tom nas últimas horas.
“Eles acham que me matam, eu acho que se suicidam. Sou mais duro do que parece”, assegurou hoje Redrado, que negou que sua gestão esteja enfraquecida, depois que nesta quinta-feira o Governo reduzir ainda mais a autonomia do Banco Central.
O Governo de Cristina Kirchner insiste em pedir a renúncia de Redrado.
“A situação começará a se resolver e a amenizar com a saída de Redrado”, disse hoje o chefe do bloco de deputados governistas, Agustín Rossi, que considerou que o economista só se sustenta no cargo por uma ordem judicial.
O governador da província de Buenos Aires, Daniel Scioli, um aliado do Governo, considerou uma “provocação” e um “desafio à autoridade presidencial” as expressões de Redrado.
O conflito surgiu há uma semana quando Redrado se negou a habilitar o uso de US$ 6,569 bilhões das reservas para a criação de um fundo destinado ao pagamento de dívidas soberanas, cuja criação decretou Kirchner em dezembro passado.
Diante da recusa, a presidente o destituiu por decreto, mas a Justiça o restituiu ao cargo.
Além disso, o Governo denunciou judicialmente Redrado por descumprimento de seus deveres como funcionário público.
O conflito se transferiu hoje ao distrito financeiro de Buenos Aires quando manifestantes entraram nas sedes do Banco Central e do estatal Banco de la Nación Argentina para protestar contra o Governo.
A Polícia mantém detidos os líderes do protesto, que durou cerca de meia hora e exigia o uso das reservas para melhorar a renda dos aposentados e dos beneficiados de planos sociais.
O confronto também ocorre no Parlamento, que deve se pronunciar sobre a validade de ambos os decretos presidenciais.
A oposição pede ao Executivo que convoque a sessões extraordinárias ao Congresso, agora em recesso, para tratar do assunto, mas o Governo por enquanto prefere que o debate ocorra no período ordinário, a partir de março.