O diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), salve Dominique Strauss-Kahn, delineou hoje um panorama complicado para a economia mundial e mencionou uma desaceleração generalizada acompanhada de inflação.
Em entrevista coletiva prévia à assembléia conjunta entre FMI e Banco Mundial, Strauss-Kahn alertou que a freada brusca que a economia mundial experimentará neste ano espantaria qualquer temor de uma alta de preços em outras circunstâncias – mas não será assim desta vez.
Segundo o diretor-gerente do FMI, “a inflação pode ter voltado” ao mundo pela alta dos preços dos alimentos e da energia.
As regiões mais afetadas por esta conjuntura são o continente africano e países como Haiti, Mongólia e Afeganistão.
À parte do drama humano, do qual o Banco Mundial se ocupa mais diretamente, Strauss-Kahn enfatizou que a alta dos alimentos – que soma 48% desde o final de 2006 – causou graves prejuízos macroeconômicos.
Para grande parte da África, a alta desses preços representará uma piora de mais de 1% de seu setor externo entre 2007 e 2008, impacto que o chefe do FMI considerou “gigante”, dizendo que “é provavelmente maior do que a maioria dos choques (econômicos) do passado”.
Na Europa, as contas da maioria dos países sofrerão uma deterioração de menos de 1% por este motivo, enquanto que grandes exportadores como Brasil, Argentina, Estados Unidos, Rússia e Austrália ganharão.
Bolívia e Paraguai também se beneficiarão, enquanto que o resto da América Latina se verá “moderadamente” prejudicado.
Strauss-Kahn atribuiu a alta dos preços dos alimentos em grande parte ao aumento dos cultivos para biocombustíveis e recomendou eliminar as barreiras que restringem o crescimento do fornecimento de alimentos.
Além da inflação, ele lembrou também do arrefecimento das economias de alguns países desenvolvidos, particularmente os Estados Unidos.
Segundo dados do FMI, o mundo deixará para trás o crescimento de 4,9% registrado em 2007 para ficar em 3,7% neste ano.
Esse número se aproxima perigosamente dos 3%, cifra considerada pelo órgão financeiro como “equivalente” a uma recessão mundial.
Em entrevista à Agência Efe, Subir Lall, coordenador do relatório de previsões econômicas do FMI, afirmou que esta taxa implicaria em uma retração em países desenvolvidos importantes e uma desaceleração em nações de alto crescimento, como China e Índia.
De acordo com o Fundo, a inflação nos EUA e na zona do euro está acima das metas oficiais, mas em ambos os casos as autoridades monetárias têm espaço para cortar os juros.
No entanto, o Banco Central Europeu (BCE) não atendeu a estas explicações e manteve hoje sua taxa básica de juros.
Strauss-Kahn reconheceu que os mercados emergentes suportaram bem a crise até agora, mas ressaltou que “não são imunes” a ela.
O diretor-gerente alertou para o risco de “uma parada súbita ou, pelo menos, uma redução drástica” dos fluxos de capitais rumo a países em desenvolvimento, o que afetaria em particular às nações que dependem mais do dinheiro externo para seu financiamento.
“Há muita preocupação com o que está ocorrendo nos países emergentes da Europa Central”, declarou Strauss-Kahn, em referência à República Tcheca, Hungria, Polônia e Eslováquia, que têm grandes déficits.
O chefe do FMI afirmou que a captação de recursos externos por parte das empresas de países em desenvolvimento “quase entrou em colapso” no primeiro trimestre deste ano, comparado com os três primeiros meses de 2007.
Strauss-Kahn também refletiu sobre as lições da crise financeira. Segundo ele, os bancos centrais dos países industrializados devem elaborar “uma forma padrão de intervir” nos mercados.
“É mais provável que o sinal enviado aos mercados seja entendido se diferentes bancos centrais mandarem o mesmo sinal, da mesma forma”, afirmou o diretor-gerente da entidade financeira.