ANDRÉ FONTENELLE
FOLHAPRESS
Desafiando aqueles que consideravam seu governo fadado a cair, o primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, conseguiu nesta segunda-feira (2) a façanha de aprovar o orçamento estatal para 2026, mesmo sem dispor de maioria parlamentar.
Com essa vitória política, Lecornu parece destinado a durar mais no poder que seus antecessores, Michel Barnier (três meses) e François Bayrou (nove meses). O atual premiê foi nomeado em setembro passado pelo presidente Emmanuel Macron, em tese para governar o país até as próximas eleições presidenciais e legislativas, previstas para o primeiro semestre de 2027.
Como já havia ocorrido na semana anterior, Lecornu sacramentou a aprovação do orçamento lançando mão de um dispositivo constitucional que lhe permitia aprová-lo sem votação pela Assembleia Nacional. Os oposicionistas, tanto da ultraesquerda quanto da ultradireita, apresentaram duas moções de censura distintas. Em caso de aprovação de uma delas, o gabinete cairia.
A moção da França Insubmissa (ultraesquerda) obteve 260 votos, enquanto a da Reunião Nacional (ultradireita) apenas 135, aquém da maioria de 289 votos necessária. Ao todo, Lecornu já sobreviveu a dez votações do tipo desde que assumiu o governo.
“É hora de passar a outra coisa”, discursou Lecornu no plenário da Assembleia, referindo-se aos quatro meses de debates sobre o orçamento que quase paralisaram a administração francesa.
A capacidade de sobrevivência de Lecornu, que prega a necessidade de um governo estável em meio a uma conjuntura internacional caótica, aos poucos parece dobrar a opinião pública francesa. Em pesquisa divulgada em janeiro pela empresa Odoxa, o premiê aparece como quinta personalidade política mais popular do país, bem à frente do impopular presidente Macron (12º). Ainda há muito a melhorar, entretanto: apenas 33% disseram que Lecornu é um “bom primeiro-ministro”.
A coalizão de centro-direita liderada por Lecornu representa menos de 200 dos 577 deputados da Assembleia Nacional. Mesmo assim, escapa às sucessivas moções de censura graças ao apoio tácito da esquerda (Partido Socialista) e da direita (Republicanos) moderada. Os dois partidos não fazem parte do governo, mas se recusam a aderir às moções de censura por temor de perderem suas bancadas em caso de dissolução do parlamento e convocação de eleições antecipadas.
Para aprovar o orçamento sem ser derrubado, Lecornu precisou fazer fortes concessões aos socialistas.
Ele garante que ainda assim conseguirá reduzir o déficit público francês de 5,4% para 5% do Produto Interno Bruto. O objetivo é chegar a 3% de déficit em 2029, para cumprir exigência da União Europeia a todos os países da zona do euro.