FELIPE BRAMUCCI E TOL RAMOS
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A ferramenta de verificação de idade da plataforma de jogos Roblox apresenta brechas que permitem a adultos se passarem por crianças, e vice-versa.
A reportagem fez diferentes testes para acessar o game, alvo de relatos de abuso e aliciamento de menores de 18 anos.
Recentemente, a empresa implantou um sistema de moderação para impedir que pessoas de faixas etárias distintas conversem entre si dentro do jogo. Contudo, o novo sistema de verificação etária é falho.
O primeiro teste contou com a participação de uma criança de 12 anos, autorizada pelos pais. Morador de Belo Horizonte, o garoto criou uma nova conta na plataforma e realizou o reconhecimento facial.
Concluída a verificação, os dados de acesso da conta foram repassados a um repórter adulto, que conseguiu entrar na plataforma a partir de São Paulo, sem qualquer nova checagem de identidade. Não houve pedido de código por telefone ou email nem nova autenticação biométrica, prática comum dos aplicativos.
Ou seja, isso mostrou que é possível a um adulto acessar um servidor infantil. Basta ter em mãos acesso e senha criados por um menor de 18 anos.
De acordo com as regras da plataforma, menores de 9 anos não podem usar o chat do jogo a menos que haja a liberação por parte dos responsáveis. Até os 13 anos, a verificação facial é obrigatória para ter acesso às mensagens, além da autorização dos pais.
O segundo teste provou que crianças também podem burlar o sistema. Um garoto de 14 anos, morador de Ilhéus (BA), criou uma conta e usou caneta esferográfica e um ambiente com pouca iluminação para se passar por mais velho. Ele desenhou pelos faciais e marcas de expressão no rosto antes de realizar a biometria. O sistema de verificação de idade do Roblox atribuiu a ele 17 anos.
Vídeos que circulam nas redes sociais reforçam as hipóteses testadas pela reportagem. Nos posts, é possível ver menores de idade usando a mesma estratégia de fazer uma barba com canetinha.
Procurada pela reportagem, a plataforma ainda não se pronunciou até a publicação deste texto.
O Roblox tem aparecido no noticiário após os protestos que tomaram conta do game com o anúncio da implantação de um sistema de verificação etária. Dentro do jogo, os avatares dos usuários botaram fogo em caminhões e empunharam placas com mensagens críticas às mudanças.
Eles reivindicavam a volta do chat para todas as idades e culpavam o influenciador Felca pelas alterações em agosto do ano passado, o youtuber denunciou a pedofilia nesses ambientes digitais e pautou o debate sobre o assunto no Congresso.
Houve quem questionasse se a manifestação virtual foi, de fato, encampada por crianças. Em comunidades do jogo, a maior parte dos usuários diz que sim.
Jogador do Roblox há dez anos e dono de um canal no YouTube sobre o game com mais de 234 mil seguidores, Luca Rocha, 22, afirma que a interface onde aconteceram os protestos “é basicamente um mapa feito para crianças”. “É um RP [roleplay] no qual você faz sua vidinha com seus amigos ou sozinho”, diz. “A grande maioria do público é de crianças abaixo de 12 ou 13 anos.”
Também em agosto do ano passado, a procuradora-geral do estado americano da Louisiana, Liz Murrill, entrou com uma ação contra o Roblox. Ela acusou o game de ser “o lugar perfeito para pedófilos” devido à falta de protocolos de segurança. Além disso, afirmou que a plataforma “prioriza o crescimento de usuários, receita e lucros em detrimento da segurança infantil”.
O processo no estado americano foi aberto após um episódio de grande repercussão na comunidade do jogo: o banimento do youtuber Andrew Schlep. Ele costumava fazer vídeos desmascarando supostos predadores sexuais que aliciavam menores em conversas no chat virtual.
Ele afirma que recebeu uma carta do Roblox, confirmando o banimento de todas as suas sob a alegação de que a conduta violava os termos da plataforma.
Rocha diz que as denúncias dentro da plataforma muitas vezes não são efetivas e que já presenciou situações que acenderam um alerta.
“Eu estava em um jogo de parkour. Tinha um homem falando com a voz bem grossa e tinha uma criança com ele. Ela falou que ele era o melhor amigo dela”, afirma. “Era bem esquisito, ele parecia ter ciúmes dela. Eu disse que se ele fizesse alguma coisa com a menina, eu gravaria. Ele ficou assustado e saiu do jogo. Eu reportei o caso ao Roblox, mas o usuário nunca foi banido.”