A crise econômica global reduziu o consumo de gás, mas as grandes empresas do setor preferem enxergar a conjuntura como um momento de exceção, com a expectativa que a luta contra a mudança climática ofereça uma oportunidade para esta fonte de energia nas próximas décadas.
Entre os atuais preços baixos do gás e a euforia pelas projeções do setor para 2030, a 24ª Conferência Mundial do Gás encerra hoje em Buenos Aires com uma frase repetida à exaustão como profecia: “o século 21 será o século do gás”.
Ao inaugurar a conferência na Argentina, o presidente do grupo espanhol Repsol, Antonio Brufau, foi contundente no diagnóstico que o pior da crise já ficou para trás.
Outros, como Bernhard Reutersberg, diretor-geral da alemã E.ON Ruhrgas, acreditam que a queda abrupta de consumo, particularmente na Europa, será compensada em três anos.
“É um momento de exceção”, disse um alto cargo da francesa GDF Suez sobre a baixa cotação do produto, tornando inviáveis para alguns investimentos na atual conjuntura.
Para o presidente da União Internacional do Gás (IGU, na sigla em inglês), Ernesto López Anadón, “a crise está afetando os mercados, mas hoje há sinais de estabilização e as previsões indicam que provavelmente dentro de dois ou três anos a atividade se recuperará totalmente”.
“A indústria do gás é de longo prazo porque os investimentos levam tempo. Por isso não acho que a crise interfira no crescimento da indústria. Muitas empresas ratificaram que não vão rever planos de expansão”, disse hoje López Anadón.
Existe o consenso que nos próximos anos a demanda será impulsionada pelas economias emergentes em forte processo de industrialização.
“Em 2020 a população mundial chegará a 8,5 milhões de habitantes, com um aumento do consumo de gás per capita apresentado na China, Índia, Brasil e Indonésia”, afirmou Alexey Miller, vice-presidente do diretório do grupo russo Gazprom, o maior produtor de gás do planeta.
Transformada em estrela da conferência – não foram poucas as empresas que manifestaram interesse em associar-se ao gigante russo -, Gazprom acredita que os investimentos no setor devem ser fomentados para garantir o abastecimento no longo prazo.
Segundo o vice-presidente da americana Chevron, George Kirkland, para responder à demanda prevista para 2030 serão necessários investimentos anuais de US$ 227 bilhões durante as próximas duas décadas.
O otimismo na indústria e a preocupação dos Governos em formular acordos regionais e inclusive globais que assegurem o fornecimento e o transporte de gás são estimulados por um recente estudo elaborado pela IGU, apresentado na conferência.
Conforme as projeções, a se confirmarem as tendências atuais, a demanda mundial de gás passará dos atuais 3 trilhões de metros cúbicos para 4,3 trilhões de metros cúbicos em 2030, o que elevará a participação do gás na matriz energética dos atuais 21% para 23%.
Mas os analistas do IGU incluíram em seu relatório outro cenário, no qual os países que participam da próxima cúpula sobre mudança climática, que será realizada em dezembro em Copenhague, adotem novos compromissos para reduzir as emissões de carbono.
O que para muitas indústrias representaria uma ameaça em termos de custos para adoção de tecnologias limpas, para o setor do gás constitui configura-se como a conjuntura ideal.
O gás natural é um combustível fóssil pouco contaminante, capaz de substituir fontes como o carvão, disponível em abundância para não comprometer o crescimento econômico e de mais rápida adoção que as energias renováveis.
Diante do cenário verde traçado pela IGU, a demanda de gás para 2030 será de 4,8 trilhões de metros cúbicos, elevando a participação de 28% na matriz energética global.