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Retornar ou não a Gaza, o dilema dos palestinos refugiados no Egito

A guerra destruiu ou danificou cerca de 81% das infraestruturas do território, segundo a ONU. A ajuda continua insuficiente e não foi anunciado nenhum plano concreto de reconstrução

Redação Jornal de Brasília

05/02/2026 10h32

gaza AFP

Foto: Bashar Taleb/AFP

Desde que a passagem fronteiriça de Rafah foi reaberta na segunda-feira, moradores de Gaza refugiados no Egito sentem-se profundamente divididos entre prolongar um exílio sem garantias ou voltar a um território em ruínas.

“Voltar para Gaza para quê? Para viver numa tenda?”, pergunta Mohamed, um poeta palestino de 78 anos que figura entre as dezenas de milhares de pessoas que saíram de Gaza para o Egito desde o início da guerra entre Israel e o Hamas em outubro de 2023.

Hospedado por amigos no Cairo, junto com a esposa Sawsan, de 72 anos, e o filho Omar, de 29, o septuagenário sonha todos os dias com os vizinhos, a filha, o genro e os netos de 3, 7 e 9 anos, todos ainda em Gaza.

“As razões da nossa partida continuam válidas: perdemos a nossa casa e o nosso sustento”, comentou Sawsan à AFP. A família deixou Gaza em fevereiro de 2024 graças às economias de um dos filhos, instalado desde 2019 em Nancy, no leste da França.

A guerra destruiu ou danificou cerca de 81% das infraestruturas do território, segundo a ONU. A ajuda continua insuficiente e não foi anunciado nenhum plano concreto de reconstrução.

“Não viramos as costas a Gaza, um dia voltaremos”, assegura o pai de família.

– Melhor uma tenda do que um palácio –

Em outro bairro da capital egípcia, Mahmud Abdelrahman Rabie, com a kufiya sobre os ombros, conta os dias. “Sei que já não tenho casa, não tenho nada”, diz esse homem que sobrevive em um minúsculo apartamento graças a empréstimos de amigos. Ainda assim, “quero voltar ao meu país, reencontrar-me com os meus, com a minha terra”, confia este avô com netos espalhados por Gaza.

Na segunda-feira, a passagem de Rafah — que liga a Faixa de Gaza ao Egito — reabriu após mais de 18 meses fechada, permitindo teoricamente que todos os que haviam deixado Gaza durante a guerra retornassem.

Mas, por ora, apenas alguns palestinos foram autorizados a voltar. Nesse ritmo, “minha vez chegará daqui a dois anos”, calcula Rabie, que diz chorar “todas as noites” perguntando-se “como pagar o próximo aluguel”.

“Conheço a vida numa tenda, vivi assim por mais de um ano. Apesar de tudo, quero voltar”, insiste esse habitante de Gaza de 65 anos.

Desde o início da guerra, o Egito se opôs a um “deslocamento da população palestina para fora de sua terra”. Em seu território, os refugiados palestinos não têm status jurídico ou emprego, nem acesso a serviços públicos e bancários.

“Quero obter uma carteira de motorista para ganhar o pão, mas me negam”, lamenta Rabie. “Nossa dignidade está no chão”, queixa-se.

Yaela el Beltagy, gerente de restaurantes de 36 anos, também pretende retornar a Gaza com a esposa, o filho, seus irmãos e irmãs, “ainda que lá só haja tendas”.

“Uma tenda em Gaza vale mais do que um palácio em qualquer lugar do mundo”, considera. “Não sabemos o que o futuro nos reserva, mas estamos profundamente ligados àquela terra”, acrescentou.

– Sem futuro em Gaza –

Para outros, a reabertura da passagem de Rafah é um acontecimento sem grande repercussão.

“Já não há qualquer perspectiva de futuro em Gaza: não há água potável, não há segurança, já não há escola para o meu filho, nem sequer uma casa”, enumera Nadra, de 37 anos, refugiada no Egito para tratar o filho, gravemente queimado aos oito anos durante um bombardeio israelense.

“Achei que iria embora por apenas alguns meses”, conta a mulher, que preferiu omitir o sobrenome. Dois anos depois, ocupa o mesmo apartamento minúsculo, pagando com dificuldade o aluguel graças à ajuda da irmã que vive no exterior.

“Não tenho realmente outra opção”, confidencia também à AFP Hala, assistente educacional de 40 anos, que saiu de Gaza com os pais, necessitados de cuidados.

“Não posso voltar para lá com os meus pais, nem sem os meus pais. Eles estão envelhecendo, merecem viver seus últimos dias em paz”, comenta.

AFP

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