Por Artur Monteiro
Passada uma semana do início do conflito entre Estados Unidos e Irã, a professora e especialista em relações internacionais Fernanda Medeiros, entende que o país do Oriente Médio tem demonstrado uma resiliência e infraestrutura militar superiores ao esperado, mesmo diante do poderio americano. “Mesmo a nação mais poderosa do mundo não consegue tudo que ela quer. Diante do ocorrido, a resistência do Irã ante aos ataques surpreende”.
“O governo de Donald Trump costuma cumprir o que fala, e os eventos recentes mostram que ele está disposto a violar o Direito Internacional para atingir seus próprios interesses”, alerta Fernanda. Ela aponta um visível esvaziamento da ONU, potencializado pela decisão de Washington de ignorar compromissos globais. A professora ressalta que “não existe o direito de ataques militares preventivos” e adverte que, sem a mediação de blocos organizados, os conflitos tendem a se tornar recorrentes.
Conflito completou uma semana
Na manhã do sábado (28), uma ação conjunta entre Estados Unidos e Israel atingiu o território iraniano, resultando na morte do líder supremo Ali Khamenei, que comandava o país há 37 anos, na capital Teerã. O ataque ocorreu após semanas de intensificação nos atritos entre as nações, motivados por negociações frustradas em torno de um acordo nuclear, no qual Washington exigia a interrupção imediata do projeto iraniano sob ameaça de ofensivas contínuas.
Confira entrevista com a professora Fernanda Medeiros, do Ceub
A nova política de Trump e a escalada do conflito
A ofensiva marca uma mudança drástica na postura de Donald Trump. Se no primeiro mandato o republicano adotava um discurso anti-guerra, agora reforça um comportamento intervencionista, meses depois após uma operação militar que culminou na queda de Nicolás Maduro na Venezuela.

Recentemente, o Irã firmou parcerias comerciais com China e Rússia, que condenaram e lamentaram a morte de Khamenei. Contudo, Medeiros considera difícil que as duas potências interfiram diretamente no conflito agora. “Atualmente, a Rússia segue focada na guerra na Ucrânia, enquanto a China prioriza a estabilidade comercial e já solicitou publicamente a reabertura do Estreito de Ormuz. Portanto, é pouco provável que suas intenções mudem no momento”.
A sucessão de poder
O Irã enfrenta agora um vácuo de poder que poderá ser preenchido momentaneamente por um sucessor considerado ainda mais “linha-dura”. Mojtaba Khamenei, filho do falecido líder, é o nome mais cotado para assumir o comando definitivo, embora o regime mantenha sigilo para evitar que o novo líder se torne um alvo militar imediato. Trump repudiou essa possibilidade, afirmando que deveria participar da escolha do próximo comandante iraniano.
Diferentemente do que aconteceu na Venezuela, a especialista acredita que as intervenções de Trump não surtirão efeito imediato no Irã devido à sua estrutura política consolidada. “Khamenei já tinha 86 anos, portanto sua sucessão com certeza já estava sendo planejada”. Ela ressalta que, apesar da oposição interna, a repressão histórica impede a organização de forças para derrubar o regime. Medeiros ainda lamentou o dano colateral a civis, citando o bombardeio a uma escola para meninas em Teerã que vitimou dezenas de mulheres.

Posicionamento das nações e o enfraquecimento da ONU
A comunidade internacional divide-se entre o apoio logístico e a cautela. Reino Unido, Alemanha e França pediram que o Irã evite retaliações a bases americanas, mas a unidade europeia apresenta fissuras: a Espanha negou o uso de seu território para operações dos EUA, e a França mantém embates com Trump ao não seguir integralmente a estratégia americana. Entretando, apesar da preferência pelo desfecho do conflito sem seu envolvimento direto, alguns países manifestaram a intenção de defender seus interesses e os de seus aliados, indicando que podem adotar ‘ações defensivas’ caso necessárias.
E o Brasil?
O Brasil emergiu como um articulador fundamental e foi solicitado pelos Emirados Árabes para mediar o diálogo com o Irã, devido à sua neutralidade histórica. Medeiros pontua que o país possui um trânsito privilegiado entre ambos os lados, seguindo princípios de paz e não intervenção.
Entretanto, o destaque diplomático não isola o país de reflexos econômicos. A instabilidade no Estreito de Ormuz pode elevar o preço do petróleo, impactando o valor da gasolina e a inflação de transportes no Brasil. Há também apreensão no setor do agronegócio quanto ao fornecimento de insumos básicos. Apesar disso, a especialista acredita que o país tem condições de lidar com a crise: “Os preços irão subir, mas acredito que não será suficiente para desestabilizar o país economicamente. Há meios de mitigar esses danos com um planejamento qualificado”.
Supervisão de Luiz Claudio Ferreira