A Junta Militar permitiu a visita de Pinheiro a várias instalações nas quais permanecem detidas centenas de pessoas relacionadas com as manifestações de setembro, entre elas Insein, que abriga os presos políticos e ativistas mais destacados.
Ao término da visita ao presídio e pouco antes de deixar o país, o diplomata brasileiro disse à imprensa que conversou com muitos presos, entre eles o jornalista Win Tin, de 77 anos e preso há 18 anos por escrever um artigo contrário ao regime militar.
Pinheiro falou com membros do movimento antigovernamental Geração 88, criado pelos líderes dos protestos feitos pelos estudantes em 1988, e que organizou com os monges budistas as manifestações em setembro nas maiores cidades do país.
Na segunda-feira, o relator da ONU permaneceu por duas horas no centro penitenciário, mas não se reuniu com os presos e na vista feita na quinta-feira na prisão, segundo versões de testemunhas recolhidas pela rádio Mizzima.
O diplomata brasileiro, que em 2003 deixou Mianmar após descobrir que as autoridades tinham gravado suas conversas com os presos, é acompanhado durante seus deslocamentos por agentes com roupa civil, e em algumas ocasiões também por policiais uniformizados.
Segundo as Nações Unidas e a Anistia Internacional (AI), cerca de 1.100 birmaneses estão presos por motivos políticos, a maioria deles em Insein, nos arredores de Yangun, e que o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) tem acesso restrito por ordem das autoridades.
A Junta Militar negava a entrada de Pinheiro em Mianmar há quase quatro anos e o diplomata brasileiro informou na quarta-feira aos representantes do corpo diplomático, com quem se reuniu em Naypidaw, capital administrativa do país, que confiava em obter a permissão do governo militar para dialogar com alguns dos políticos presos.
Insein, ao norte de Yangun, é um enorme complexo construído durante a época colonial britânica, rodeado por altos muros de concreto. De acordo com a Anistia Internacional, os presos sobrevivem amontoados em celas, recebem uma alimentação deficiente, e não recebem atendimento sanitário suficiente.
A vencedora do Nobel da Paz e líder da formação opositora Liga Nacional pela Democracia (LND), Aung San Suu Kyi, esteve em Insein por várias semanas em 2003, antes de ser transferida para sua casa de Yangun, na qual desde então cumpre prisão domiciliar.
A ONU afirmou que o relator também se reuniu com os ministros de Assuntos Exteriores, Nyan Win, e do Trabalho, Aung Kyi, que faz o papel de mediador da Junta Militar com o organismo multinacional e a oposição birmanesa.
A visita de cinco dias de Pinheiro ocorre uma semana depois da missão do enviado especial das Nações Unidas para Mianmar, Ibrahim Gambari, que se reuniu com vários altos cargos da Junta Militar e da oposição.
O regime, presidido pelo general Than Shwe, admitiu que dez pessoas morreram e cerca de 3 mil foram presas durante ou depois das manifestações grandes em favor da democracia, e assegurou ter libertado a grande maioria.
No entanto, a dissidência sustentou que cerca de 200 pessoas perderam a vida e mais 6 mil foram detidas. Durante a missão de Pinheiro em Mianmar, foram detidas em Yangun, a ativista Su Su Nway, agraciada em 2006 com o prêmio John Humphrey de liberdade, e outras duas pessoas por distribuírem panfletos com mensagens antigovernamentais.
A dissidência birmanesa também confirmou a prisão do monge budista U Gambira, um dos líderes dos protestos pacíficos organizados pelos religiosos em Yangun, e que encorajaram a população civil a se manifestarem contra a Junta Militar.
Mianmar (antiga Birmânia) está sob o controle dos militares desde 1962 e não realiza eleições parlamentares desde 1990, quando o partido oficial sofreu uma forte derrota para a oposição liderada por Suu Kyi, embora os resultados não tenham sido reconhecidos pelos generais.