Em 1976, ask a diplomacia britânica, price que temia a vitória dos comunistas nas eleições do mesmo ano na Itália, help cogitou apoiar um eventual golpe de Estado para impedir a chega do Partido Comunista Italiano (PCI) ao poder, mas a idéia foi descartada por ser “irreal e temerária”.
A afirmação está contida hoje em uma grande reportagem do jornal italiano “La Repúbblica”, que traz documentos britânicos que deixaram de ser secretos.
A publicação se baseia em que um documento de 6 de maio de 1976, redigido um mês e meio antes das eleições gerais de 20 de junho pelo Ministério de Assuntos Exteriores britânico, intitulado: “Itália e os comunistas, opções”.
Entre as opções, os britânicos escrevem: “Ações de apoio a um golpe de estado”.
A ação poderia ser apoiada pelo Exército, pela Polícia e pela direita do país, “já que um golpe de Estado asséptico, em grau de derrubar o PCI ou de impedir seu acesso ao poder, seria atraente”, indicam os documentos.
Apesar disso, a idéia foi considerada irrealizável, “pela força do PCI no movimento sindical, pela possibilidade de uma longa guerra civil ou pela eventual intervenção da União Soviética”, escreve o jornal.
Na reportagem, o “La Repubblica” aponta outro documento, de 13 de abril de 1976, de um grupo de especialista do Ministério de Exteriores britânico que elaborou uma estratégia anti-PCI com vários cenários.
Os especialistas propuseram um maior financiamento das outras legendas, campanhas de difamação contra o partido, advertência à URSS, persuasões econômicas, ou seja, pressões da Comunidade Européia e do Fundo Monetário Internacional (FMI), acrescenta a publicação.
Uma das opções, a “número quatro”, fala de “subversão” e indica uma “ação de apoio a partir do exterior a um golpe de estado”.
As vantagens seriam abalar o PCI e as desvantagens, a “dificuldade para realizá-la e que se mantenha em segredo durante muito tempo”.
A revelação da estratégia poderia prejudicar os interesses do Ocidente (as opiniões públicas dos Aliados poderiam ser desfavoráveis) e ajudar o partido a justificar seu controle da maquinaria do Estado.
“Mas uma intervenção exterior serviria para tirar o PCI do poder, a situação política italiana permaneceria instável, reforçando a influência comunista e a da URSS”, diz o documento.
O dossiê ressalta que, além do Reino Unido, Estados Unidos, França e a cúpula da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) estavam muito preocupadas com a eventual vitória dos comunistas.
O jornal ressalta uma carta que o na época secretário de Estado americano, Henry Kissinger, escreveu em janeiro de 1976 ao presidente da Internacional Socialista, Willy Brandt, sobre o crescimento do comunismo em Itália, Portugal e Espanha.
“Tenho o dever de expressar minha forte preocupação pela situação que se criou. A natureza política da Otan mudaria se um ou mais dos países da Aliança tivessem que formar Governo com os comunistas”, indicou Kissinger, temeroso, diz o jornal, do “emergir” da URSS como grande potência mundial.
Kissinger era o mais intransigente, afirma o “La Repubblica”, que revela também uma carta de 25 de março do Ministério da Defesa britânico aos titulares de Exteriores da Aliança Atlântica.
“A presença do PCI no Governo italiano e a conseqüente ameaça de subversão podem colocar a Otan e o Ocidente diante da necessidade de tomar uma grave decisão”, aponta esse documento.
Em uma carta do embaixador britânico perante a Otan ressalta-se a preocupação que existe na Aliança e não se descarta que em caso de vitória do PCI, a Itália seja expulsa da organização, antes de chegar à paralisia interna.
Temia-se na Otan que seus documentos acabassem em mãos de Moscou, segundo outra carta.
Em carta do Ministério da Defesa britânico, ressalta-se que como o PCI possuía grande apoio entre a população italiana, não seria estranho que algum de seus militantes tivessem se infiltrado no quartel-general da Otan no sul da Europa, com sede em Nápoles.
Para os britânicos, o líder comunista italiano Enrico Berlinguer era mais perigoso que outros, como o português Álvaro Cunhal.
O jornal traz uma carta do embaixador do Reino Unido em Roma, sir Guy Millard, na qual diz que Berlinguer “é uma figura atraente, que inspira confiança com sua oratória, o que diz é crível e o afirma de maneira convincente”.
O embaixador de Londres perante a Santa Sé, Dugald Malcolm, se reuniu na época datas com o então patriarca de Veneza, Albino Luciani – futuro João Paulo I. Ele também teria lhe expressado o temor da Igreja com a eventual chegada ao poder dos comunistas, sempre segundo o relatório.
Em outros documentos, os aliados analisam a situação política gerada e em um deles é descrito um encontro entre Kissinger e o ministro de Exteriores britânico, Anthony Crosland.
Para o na época secretário de Estado americano, Berlinguer é o mais perigoso e o britânico considera que o PCI não teria tanto prestígio “se os outros partidos não fossem tão desastrosos”.
Em 20 de junho de 1976, a Democracia Cristã obteve 38,7% dos votos, enquanto o PCI ficou com 34,4%.
O jornal narra ainda uma reunião secreta em Paris, em 8 de julho de 1976, entre representantes dos Governos de França, Reino Unido, EUA e Alemanha, na qual decidem que a única solução era um Governo dirigido pelos democratas-cristãos.
No dia 29 de julho do 76, o democrata-cristão Giulio Andreotti formou Governo sozinho.