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Putin busca ganhos com guerra no Irã, mas teme Trump na Ucrânia

A avaliação foi colhida pela Folha com quatro pessoas próximas do Kremlin

Redação Jornal de Brasília

10/03/2026 7h51

Foto: ALEXANDER NEMENOV / AFP

Foto: ALEXANDER NEMENOV / AFP

IGOR GIELOW
FOLHAPRESS

O presidente Vladimir Putin busca ampliar ganhos imediatos com a turbulência decorrente da guerra iniciada por Donald Trump contra o Irã, mas tem forte desconfiança sobre o que o americano reserva para sua relação com a Rússia na esteira do novo conflito.

A avaliação foi colhida pela Folha de S.Paulo com quatro pessoas próximas do Kremlin. Na segunda-feira (9), Putin e Trump passaram uma hora ao telefone, conversa da qual surgiram boas notícias para o russo.

Os Estados Unidos vão, segundo Trump, aliviar algumas sanções sobre petróleo para garantir o fluxo do produto no mercado mundial enquanto a guerra no Oriente Médio faz o preço da commodity flutuar violentamente.

O americano citou o risco de desabastecimento devido ao eventual fechamento do estreito de Hormuz, por onde passa um quinto da produção mundial de óleo e gás natural liquefeito. Na prática, porém, o trânsito já está interrompido devido às ações militares e à ameaça de Teerã de atacar navios.

Na semana passada, os EUA já haviam relaxado por 30 dias as punições à compra do petróleo russo pela Índia, fato celebrado por Putin.

Na segunda, antes de falar com Trump, o russo disse que estava “pronto para negociar com a Europa” —o continente importava mais de 20% do óleo que consumia de Moscou antes da guerra; hoje, são 6%. “Até aqui, só há um vencedor nessa guerra, a Rússia”, disse o chefe do Conselho Europeu, António Costa, nesta terça (10).

“Ela ganha novos recursos para financiar a guerra com o preço alto da energia. Ela lucra com o desvio de recursos militares que poderiam apoiar a Ucrânia. E se beneficia da atenção reduzida aos ucranianos”, resumiu o português.

Putin vê na nova guerra uma oportunidade de escapar de forma permanente das sanções devido a seu próprio conflito, a invasão da Ucrânia que completou quatro anos há duas semanas. Na conversa com Trump, segundo os observadores, foram levantadas ideias para uma solução no Oriente Médio que também embutissem vantagens a Moscou no travado processo de paz com Kiev.

As rodadas de negociações sobre a guerra europeia, que estavam estagnadas, pararam após a nova guerra. Nesta terça, o presidente Volodimir Zelenski e o negociador americano Steve Witkoff disseram que pode haver novo diálogo na semana que vem.

“Os americanos agora têm mais com que se preocupar”, disse Putin na semana passada. Com efeito, o ritmo dos bombardeios contra a Ucrânia caiu, com o presidente Volodimir Zelenski denunciando a preparação de uma nova ofensiva russa.

Ela está sendo planejada de fato, segundo uma das pessoas que conversou com a reportagem, o que é visto no entorno de Putin como uma espécie de seguro contra o temor estratégico que o ataque ao Irã trouxe ao Kremlin.

A ideia é buscar mais vantagens territoriais para quando a situação no Oriente Médio se acalmar, ainda que relativamente, e o foco de Trump voltar para a Ucrânia. Os russos temem que o americano vá endurecer os termos para tentar forçar uma solução para a crise.

Todos os ouvidos em Moscou repetem a avaliação geopolítica óbvia: Putin viu Trump capturar um aliado seu, o ditador venezuelano, Nicolás Maduro, e matar outro, o líder supremo Ali Khamenei, em menos de dois meses. Há zero coordenação no âmbito do Brics, tão valorizado em Moscou e do qual o Irã faz parte.

A percepção no Kremlin é de alarme, em especial porque a Rússia está impotente: só pode oferecer palavras de solidariedade e se colocar como intermediária para uma negociação por ora hipotética. Foi o qe Putin fez nesta terça, ao ligar para o colega iraniano Masoud Pezeshkian.

Queixas ante a dita prepotência imperialista ressurgiram nos programas de comentaristas linha-dura na TV estatal russa, embora voltadas ao público interno. Na descrição dos observadores do Kremlin, o governo Putin está atônito com a desenvoltura de Trump e tem medo de ser o próximo.

Não no sentido de ser derrubado, mas estrategicamente. A obsessão russa com a ideia de cerco, na base do ataque à Ucrânia devido à expansão a leste da aliança militar Otan, ganha ares de paranoia na elite do país quando dois líderes da esfera russo-chinesa são tirados do mapa à força.

Isso, segundo os ouvidos, deverá levar a um endurecimento na retórica nuclear de Putin, que há duas semanas dizia “ser impossível derrotar a Rússia estrategicamente” pelo fato de ela comandar o maior arsenal atômico do mundo —faltou lembrar que, num embate desses, todos perdem.

A preocupação se fixa nos próximos passos na Ucrânia. Enquanto tenta casar as duas crises em seu favor, Putin já se prepara para escalar sua própria guerra.

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