O Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) dos Estados Unidos enfrenta uma onda de protestos em mais de mil cidades do país, desencadeados pelo assassinato da cidadã americana Renee Nicole Good, morta a tiros por agentes da agência em 7 de janeiro, em Minnesota.
Criado em março de 2003, no contexto pós-11 de setembro, o ICE unificou serviços de alfândega e imigração para combater a imigração ilegal considerada ameaça à segurança nacional. Sob o governo de Donald Trump, o orçamento da agência triplicou, alcançando US$ 29,9 bilhões anuais, valor superior às forças armadas de quase todos os países, exceto 16, segundo dados do SIPRI. No primeiro ano da administração, foram contratados 12 mil novos agentes, elevando o efetivo para 22 mil, um aumento de 120%. Além disso, US$ 45 bilhões foram alocados para centros de detenção, representando um crescimento de 265% no orçamento para essa finalidade, superior em 62% ao sistema prisional federal, conforme o Conselho Americano de Imigração.
Esses recursos visam cumprir a promessa de campanha de Trump de deportar cerca de 1 milhão de imigrantes indocumentados por ano, em um país com estimados 14 milhões de pessoas nessa situação, segundo o Pew Research Center. No entanto, organizações de direitos humanos denunciam métodos agressivos empregados pelos agentes, incluindo abordagens em veículos sem identificação e com máscaras, prisões em ruas, escolas e igrejas, e deportações sem devido processo legal, especialmente em comunidades não brancas.
O professor emérito de história da Universidade de Brown, James N. Green, ressalta que os agentes só podem prender imigrantes com mandado judicial e em casos de crimes, mas as metas elevadas levam a práticas truculentas para intimidar a população. Ele destaca um movimento crescente para educar imigrantes sobre seus direitos.
A morte de Renee Good gerou comoção nacional e mobilização solidária. Manifestantes protegem indocumentados, com ações de brancos em solidariedade a latinos e outras minorias, algo inédito segundo Green. Em Minnesota, o ICE lamentou interferências de manifestantes em suas operações contra ‘imigrantes ilegais criminosos’.
Críticos, como o historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, da UFRJ, comparam o ICE a uma ‘polícia política’ semelhante à Gestapo, mirando indígenas, negros e pardos. A ONG Represent Us aponta falta de transparência e salvaguardas. O cientista político Fábio de Sá e Silva, da Universidade de Oklahoma, critica a leniência de instituições como o Congresso e a Suprema Corte, que legitimam abordagens baseadas em estereótipos.