DOUGLAS GAVRAS
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS)
O presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, encerrou de maneira abrupta o processo de transição de poder com o atual líder do país, Gabriel Boric.
A ruptura foi provocada por um conflito relacionado a um projeto de cabo submarino de fibra óptica com a China, que resultou em sanções dos Estados Unidos contra o governo chileno.
Uma reunião entre os dois na última terça-feira (3) foi encerrada em pouco mais de dez minutos por Kast. O clima já tenso da transição piorou com acusações de falta de transição, versões contraditórias sobre o que foi discutido anteriormente e a recusa de Boric em atender às demandas de retratação feitas por Kast.
“Não confiamos nas informações que nos são dadas. A suspensão da reunião de hoje é uma resposta a um processo de transferência que iniciamos da melhor forma, colocando todas as facilidades a nosso favor, mas com falta de informação e transparência em diferentes ministérios e departamentos”, afirmou Kast.
“Não há nada escondido. Fomos absolutamente transparentes”, falou Boric à imprensa chilena.
O cabo de fibra óptica de quase 20 mil quilômetros, chamado Expresso Chile-China, da empresa China Mobile International, buscava conectar os continentes. Um decreto para iniciar o projeto foi assinado em 27 de janeiro, mas posteriormente seu trâmite foi interrompido sem uma explicação clara.
O projeto gerou críticas da Casa Branca, que impôs sanções ao ministro dos Transportes, Juan Carlos Muñoz, e a outros conselheiros para tentar barrar a aprovação, alegando que isso comprometia a segurança nacional do Chile. A embaixada dos EUA acusou Boric de falhar na proteção de dados.
Tanto o atual presidente chileno quanto o presidente eleito concordaram inicialmente em se reunir para discutir a situação, mas Kast acusou Boric de mentir em uma entrevista, exigindo um pedido de desculpas público.
Kast assegurou que não foi informado sobre o tema antes que o projeto fosse apresentado, enquanto o presidente diz que eles conversaram.
“Conversei com o presidente eleito semanas antes disso se tornar uma controvérsia para transmitir minha percepção sobre o assunto”, rebateu Boric, acrescentando que os Estados Unidos já haviam manifestado preocupações com o projeto.
A transição atual é a mais conturbada desde a restauração da democracia no Chile, de 1989 a 1990. A briga ocorre uma semana antes da posse de Kast, marcada para ocorrer em 11 de março e com presença confirmada de diferentes chefes de Estado, inclusive do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Boric acusa Kast de usar uma estratégia para conturbar a transferência de poder e culpar o atual governo, mas disse estar disponível para novas reuniões entre as duas equipes.
“Lamento profundamente que o presidente eleito José Antonio Kast tenha tomado a decisão de manchar a saudável e orgulhosa tradição republicana de realizar uma transferência de poder que coloca a continuidade do Estado e o bem-estar dos chilenos no centro”, disse Boric nas redes sociais.
Antes mesmo de tomar posse, Kast vem mantendo uma agenda pública intensa, que inclui agendas internacionais e negociações com o Legislativo.
Ele aceitou participar de um encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e chefes de Estado da América Latina, previsto para ocorrer no próximo dia 7 de março.