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Premiê da França escapa de novas tentativas de derrubada no Parlamento

Diante do impasse na negociação do orçamento, Lecornu havia anunciado no início da semana que recorreria ao artigo 49, alínea 3 da Constituição de 1958, que permite impor algumas leis sem votação

Redação Jornal de Brasília

23/01/2026 15h31

Foto: Stephane Mahe/AFP

Primeiro-ministro Sébastien Lecornu – Foto: Stephane Mahe/AFP Foto: Stephane Mahe/AFP

ANDRÉ FONTENELLE
FOLHAPRESS

O primeiro-ministro da França, Sébastien Lecornu, sobreviveu nesta sexta-feira (23) a duas novas tentativas da ultraesquerda e da ultradireita de derrubar seu governo. As moções de censura foram motivadas pela decisão do premiê de usar um dispositivo constitucional para aprovar o orçamento de 2026 sem votação na Assembleia Nacional.

A moção da França Insubmissa (LFI), de ultraesquerda, obteve 269 votos. Eram necessários 288, maioria absoluta dos 575 deputados em exercício. A da Reunião Nacional (RN), de ultradireita, teve apenas 142.

Se aprovada, a moção faria cair o gabinete, obrigando o presidente Emmanuel Macron a nomear um novo premiê ou convocar eleições legislativas antecipadas.

Na semana passada, duas outras moções apresentadas pelos mesmos partidos também haviam sido derrotadas com placares bastante parecidos: 256 e 142 votos, respectivamente.

O resultado era esperado. Lecornu, de centro-direita, negociou com o Partido Socialista (PS), da esquerda moderada, algumas concessões no orçamento. Em troca, o PS, que teme perder deputados em caso de eleição antecipada, não apoiou as moções de censura. A LFI acusa o PS de trair o eleitorado de esquerda.

Diante do impasse na negociação do orçamento, Lecornu havia anunciado no início da semana que recorreria ao artigo 49, alínea 3 da Constituição de 1958, que permite impor algumas leis sem votação.

Ao fazer isso, descumpriu promessa feita no final do ano passado de que não usaria o “49.3”, como é chamado o dispositivo, para governar.

Criado, em tese, para situações excepcionais, o 49.3 banalizou-se progressivamente, até que em 2008 uma reforma constitucional limitou seu uso às leis orçamentárias, além de uma única lei de outro assunto a cada ano.

Apesar dessa limitação, os quatro chefes de governo anteriores nomeados por Macron acionaram 29 vezes o 49.3 desde 2017. Um deles, Michel Barnier, foi derrubado em 2024 por uma moção de censura ao tentar aprovar dessa forma o orçamento da seguridade social.

O 49.3 foi criado para dar maior estabilidade dos governos. Ao disporem desse instrumento, podem contornar a obstrução da oposição. Antes dele, o sistema parlamentar francês era sujeito a constantes crises. Porém, a simples existência do dispositivo acaba inibindo o debate parlamentar, porque exime o primeiro-ministro de negociar com as bancadas.

Mesmo tendo prometido não utilizar o 49.3, Lecornu sabia que bastaria voltar atrás em sua palavra -o que ele acabou fazendo, como previam, desde o final do ano passado, os líderes da oposição.

O pano de fundo do debate político atual na França é a eleição presidencial prevista para abril de 2027. A Constituição impede Macron de concorrer a um terceiro mandato. O presidente foi abandonado por seus possíveis herdeiros políticos, como os ex-premiês Édouard Philippe e Gabriel Attal. Nenhum dos dois quer carregar o legado de Macron.

Em março, haverá eleições municipais na França. Vistas como um termômetro para a votação de 2027, elas também influenciam as atitudes dos partidos em relação a Lecornu. A maior atenção é para o pleito em Paris, onde a atual ministra da Cultura, Rachida Dati, de direita, desponta como favorita.

Apesar da impopularidade apontada pelas pesquisas, pelo menos na moda Macron está ditando tendências. O sucesso dos óculos escuros tipo aviador que o presidente usou no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, por conta de uma hemorragia ocular, levou a uma alta de quase 50% nas ações do fabricante, uma empresa do sul da França sob controle italiano.

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