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Mundo

Polícia tem museu do Sendero Luminoso em Lima

Arquivo Geral

29/11/2009 0h00

 Lima tem um dos museus mais surpreendentes do mundo: construído pela Polícia com material apreendido dos terroristas do Sendero Luminoso, e com o mentor e chefe da quadrilha, Abimael Guzmán, a mostra deu tão certo que foi batizada de “Museu da Revolução”

Não contém armas ou bombas caseiras do grupo que aterrorizou o país nas décadas de 80 e 90. Também não há fotografias com imagens dos sangrentos atentados ou objetos que lembrem os anos em que Lima estava praticamente cercada e era um país em chamas.

Os objetos que estão expostos nas vitrinas são tapetes, bandejas de chá, medalhas, e até os óculos usados por Abimael e seus remédios, em uma ingênua homenagem ao grupo maoísta que matou 35 mil pessoas por razões ideológicas.

Claro que as bandejas e tapetes não são inocentes: reproduzem palavras de ordem ideológicas e “cenas de guerra” em que os senderistas descem das montanhas, espalham bombas nos povoados e pelas estradas e “executam” em praça pública os inimigos, militares e prefeitos provincianos.

A definição de “museu” é enganosa: não está aberto ao público, mas reservado a visitas de policiais, militares e agentes de inteligência, pesquisadores universitários e, ocasionalmente, jornalistas que queiram entender como um grupo com pouco mais pouco mais de 1 mil militantes manteve sob ameaça um país durante 12 anos.

Nem todos os visitantes gostam do que veem: “as forças armadas em mais de uma ocasião já quiseram levar todo o material e queimá-lo, mas a posição da Polícia se sobressaiu”, comenta o major Marco Castro, Direção Nacional Contra-terrorista (Dircote) da Polícia e que atualmente é o “guia” particular da coleção.

A ideia de montar a exposição surgiu depois da apreensão em um armazém de 1,2 mil objetos pertencentes a Abimael em 1992: “estava tudo muito bem embalado e conservado, eles pensavam montar seu próprio museu, mas nós nos antecipamos”, proclama orgulhoso o major.

O único objeto que não pertence a essa coleção particular é um par de coturnos e um grotesco boneco de papelão em tamanho natural de Abimael Guzmán, vestido com roupas listradas em branco e preto de presidiário, com seus óculos autênticos e com os cabelos reais.

Os policiais que preservam o museu dedicaram um bom tempo estudando a simbologia senderista e agora podem comprovar que Abimael sempre se destacou entre seus companheiros, esteve rodeado de uma aura de brilho e não costumava empunhar armas, mas, sim, um livro, porque o derramamento de sangue era função da tropa. Por assim dizer ele era um Deus medieval.

O major Castro justifica assim sua querida coleção: “aqui temos capturado o espírito da organização, sua essência ideológica, e enquanto estiver em nossas mãos o grupo não voltará a ser o mesmo. Claro que há risco que roubem ou destruam, ou que se transforme em um santuário, e por isso o temos de guarnecê-lo”.

“No princípio, é possível admirar o talento e a disciplina deles, porque a quadrilha estava muito ligada ao povo e conseguiu incorporar a arte popular à guerra”, prossegue Castro ao explicar o indubitável ar andino e a complexidade técnica de uns objetos fabricados pelos presos senderistas e tirados dos presídios com total impunidade como presentes para seu chefe e mentor.

É evidente que este museu não recebe crianças de colégios em visitas guiadas “porque isso poderia contaminar a mente dos jovens que não tenham uma sólida formação ideológica”, reconhece o major.

Entre os ilustres visitantes que já passaram por esta sinistra coleção está o ex-presidente Alberto Fujimori, vários ministros, altos chefes militares e policiais e funcionários de embaixadas, mas quem ficou mais impressionado foi o próprio Abimael Guzmán.

Retirado da prisão e convidado a explicar o sentido de certas tapeçarias e que esclarecesse certas mensagens supostamente ocultos, Abimael percorreu admirado a coleção “e se emocionou muitíssimo, parecia uma criança com uma coleção de brinquedos novos”, lembra Castro.

A mostra ficou em melhores mãos: nas mãos do inimigo.

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