O presidente eleito do Chile, o empresário Sebastián Piñera, trabalha a partir de hoje para formar a sua equipe de Governo, cuja capacidade negociadora será chave para alcançar acordos diante de um Parlamento onde a oposição é a maioria.
Por isso, após sua vitória eleitoral, que representa o retorno ao poder da direita chilena pela via democrática desde 1958, anunciou um “Governo de união nacional” e invocou a política de acordos que nos anos 90 permitiu alcançar consensos em matéria legislativa.
A possibilidade de reviver essa política de acordos entre a Concertação pela Democracia e a direita chilena dependerá da capacidade de negociação da pessoa que ocupar o Ministério da Presidência, um posto-chave já que é o enlace entre o Executivo e o Legislativo.
Fontes da coalizão direitista mencionaram como possível titular ao cargo o economista Cristián Larroulet, quem declarou hoje à imprensa local que o Governo de Piñera “não será de direita”.
Após o pleito parlamentar de dezembro, a Concertação ficou com maioria de 19 cadeiras contra 16 no Senado. Na Câmara dos Deputados, a direita terá 58 cadeiras e a Concertação 54.
Mas haverá também três deputados comunistas, três do Partido Regionalista Independente (PRI) e dois independentes que serão chaves na hora de negociar os projetos, conforme disse à Agência Efe o analista Santiago Escobar.
Os projetos do presidente eleito apontarão para a criação de um milhão de empregos, para a melhoria da administração da Justiça e aperfeiçoamento das políticas educativas, de habitação e de saúde e ainda para o aumento do crescimento econômico, entre outros objetivos.
Piñera, quem se mostrou conciliador após sua vitória, afirmou que fará um Governo “com os melhores, os mais preparados, honestos e com maior vocação para o serviço público” e prometeu “fortalecer e ampliar” a rede de proteção social desenvolvida por Michelle Bachelet.
Segundo os analistas, estas expressões reforçam a impressão que o próximo Governo chileno evitará o confronto.
Piñera obteve 53,60% dos votos, 3,21 pontos de vantagem sobre o candidato governista, Eduardo Frei, que alcançou 48,39%, pelo último cômputo eleitoral divulgado hoje.
No primeiro dia de reuniões, o presidente eleito se encontrou com diversas autoridades, entre estas a governante Michelle Bachelet, com quem conversou 40 minutos.
A presidente saiu em silêncio da reunião na casa do empresário, mas mais tarde, na Moeda, disse que tinha convidado o seu sucessor à Cúpula do Grupo do Rio que será realizada em 21 de fevereiro em Cancún (México), na qual Chile receberá a Presidência temporária da instância.
“Convidei Sebastián Piñera a me acompanhar à Cúpula de Rio, onde terá a oportunidade de interagir e ser apresentado aos líderes da região”, disse Bachelet, quem reiterou sua intenção de governar “até o último dia”.
Piñera também se reuniu hoje com os presidentes do Senado e da Câmara dos Deputados e com as autoridades religiosas.
O presidente eleito recebeu mensagens de felicitações dos governantes da maioria dos países latino-americanos e europeus, entre estes do presidente do Governo espanhol, José Luis Rodríguez Zapatero.
Por outra parte, os dirigentes da Concertação ainda mastigavam hoje o processo eleitoral que terminou com um ciclo de 20 anos no poder, com distintas interpretações e tardios reconhecimentos de erros.
Enquanto o ex-presidente Ricardo Lagos proclamava que a coalizão de centro-esquerda sai da Moeda “com a cabeça erguida”, seu filho do mesmo nome, eleito senador em 13 de dezembro, afirmava que a eleição “não foi vencida pela direita, mas perdida pela Concertação”.
Mais de meia centena de jovens ocuparam durante a madrugada a sede da Democracia Cristã (DC) para exigir a renúncia de seu presidente, Juan Carlos Latorre, e de seu colega socialista, Camilo Escalona, a quem consideram culpados pela derrota.
Latorre admitiu hoje que a coalizão “não esteve à altura”, mas fez um pronunciamento sobre um eventual passo ao lado antes de março, quando a DC realizará uma reunião nacional.
O deputado Marcelo Díaz anunciou sua intenção de presidir o Partido Socialista (PS) e disse que a demissão da atual direção deveria concretizar-se no sábado.
“A renúncia de toda a mesa do PS, é um requisito, uma condição indispensável para construir um partido de acordo com os tempos”, disse.