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Mundo

Peru vai às urnas para eleger seu 10º presidente em uma década

O número de presidenciáveis, inédito na história da nação, impactou até mesmo a organização dos debates

Redação Jornal de Brasília

12/04/2026 8h58

peru election feature

Foto: LUIS ROBAYO / AFP

DANIELA ARCANJO
LIMA, PERU (FOLHAPRESS)

O Peru volta às urnas neste domingo (12) para escolher seu décimo presidente em uma década –situação que dimensiona o tamanho da instabilidade política do país em meio a uma crise de segurança que motivou protestos massivos e duramente reprimidos no último ano.

“A instabilidade me desanima”, afirma a economista Sandra Upiachihua, 26, de um parque na capital. Às vésperas do pleito, ela não escolheu seu candidato entre os 35 possíveis. “Com o histórico, não sei se é possível que o eleito fique muito tempo no poder.”

O número de presidenciáveis, inédito na história da nação, impactou até mesmo a organização dos debates, feitos em três grupos de candidatos ao longo de seis dias, com blocos de duas horas e meia de duração.

Seguindo a tradição das últimas três eleições, Keiko Fujimori aparece como uma das favoritas.

De acordo com a empresa de pesquisas Ipsos, a filha do ditador Alberto Fujimori (1990-2000) começou a corrida em janeiro atrás do aspirante a Trump peruano Rafael López Aliaga, mas o superou no final de março. No levantamento mais recente, divulgado no início de abril, ela era a preferência de 13% dos eleitores, à frente do comediante e apresentador de televisão Carlos Álvarez (9%) e de Aliaga (8%).

A sondagem, porém, não traz grandes revelações para além do fato de que nenhum deles vence dos indecisos e dos votos em branco.

Os três estão tecnicamente empatados dentro da margem de erro de 2,8 pontos percentuais, e Keiko costuma mesmo ter força para ir ao segundo turno, previsto para o dia 7 de junho deste ano, embora nunca tenha ganhado –foi assim nas eleições presidenciais de 2011, 2016 e 2021.

“Nas últimas eleições, houve uma desilusão generalizada com o processo eleitoral. Isso resultou em um número maior de votos em branco e nulos, o que obviamente reduziu a régua para o segundo turno”, diz o doutor em ciência política pela Universidade de Notre Dame, em Indiana, Omar Coronel, ao explicar a liderança de figuras impopulares como Keiko. “Acredito que isso provavelmente acontecerá novamente.”

A despeito de quem assuma, é no Legislativo, anabolizado nos últimos anos, que está o poder. Estarão em disputa 130 cadeiras para deputados e, pela primeira vez em 30 anos, 60 para senadores –a Câmara alta foi recriada em lei de 2024 e começa a funcionar em julho deste ano. Seu retorno pode fortalecer ainda mais o Legislativo que promoveu a troca frenética de presidentes.

A mais recente turbulência ocorreu em fevereiro deste ano e alçou José María Balcázar ao poder. Salvo novos sobressaltos, o político independente de 83 anos permanecerá no cargo até julho, quando ocorre a posse do escolhido nestas eleições.

Os cinco meses de Balcázar à frente da nação, caso cumpridos, nem sequer serão a Presidência mais breve do Peru dos últimos tempos. Seu antecessor, o conservador José Jerí, resistiu por pouco mais de quatro meses. Manuel Merino, em 2020, cinco dias.

Na outra ponta, Dina Boluarte, que assumiu após uma tentativa de autogolpe em 2022 do esquerdista Pedro Castillo, de quem era vice, foi a mais duradoura da década ao acumular quase três anos na Presidência –não sem passar por protestos massivos, escândalos de corrupção e ameaças de destituição por parte do Congresso.

Essa ameaça se tornou um fantasma da Casa de Pizarro, a sede do Executivo peruano, devido ao que especialistas vêm chamando de parlamentarização do sistema presidencialista do país.

O problema se deve, em partes, à estrutura política do Peru, que dá enorme vantagem para o Congresso.

A Constituição permite, por exemplo, que os deputados usem uma moção de vacância, uma espécie de impeachment, se julgarem que o presidente não tem capacidade moral para governar –o que custou o cargo de três líderes nos últimos dez anos.

Além do permanente perigo de destituição, o chefe do Executivo precisa lidar com um arranjo bastante particular no Legislativo. Sem blocos governistas e opositores claros e com coalizões efêmeras, o Congresso peruano vive uma profunda fragmentação que torna difícil formar maiorias.

A fraqueza dos partidos impacta também a formulação de políticas do país, que tem uma das mais altas taxas de trabalho informal da América Latina.

“Os congressistas não respondem às políticas específicas de seus partidos, mas promovem seus próprios interesses ou interesses de momento que não têm qualquer correlação com aqueles que o elegeram”, diz a advogada Milagros Campos, membro da Associação Peruana de Direito Constitucional e professora da PUC do Peru.

A falta de qualidade dos mandatos, por sua vez, leva muitos desses partidos a fazerem voos de galinha a cada eleição, sem alcançarem o número suficiente de apoiadores na votação seguinte.

“Aqueles que já fizeram parte do governo raramente permaneceram no Congresso para o mandato seguinte”, afirma Milagros, autora de um estudo que mostra que, de 2001 a 2021, 32 partidos passaram pelo Legislativo, mas apenas dois mantiveram representação contínua ao longo desse período.

Diante das deficiências da sociedade peruana, Milagros não vê com estranheza a crise de representação. Segundo uma pesquisa do Barômetro das Américas realizada no final de 2025, a segurança é o principal problema para 57% da população, seguida da corrupção, apontada por 15%.

No final do ano passado, uma onda de extorsões e assassinatos levou milhares de jovens às ruas sob o grito de “que se vayan todos”, causando a queda de Boluarte. Ao chegar ao poder, seu sucessor declarou estado de emergência em Lima e afirmou que preparava um pacote de medidas para combater a insegurança, mas também acabou destituído.

“A crise de representatividade traz consigo essa insatisfação”, afirma a pesquisadora. “Se a vida das pessoas não melhora, elas ficam desiludidas e não se sentem comprometidas com um partido. Não há nenhum mistério nisso.”

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