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Pedido de freio no desenvolvimento de IA por big techs aprofunda disputa entre EUA, China e Europa

Embaixador chinês diz que empresas americanas executam ‘tática da Guerra Fria’ e BC Europeu alerta para dependência

Redação Jornal de Brasília

15/09/2026 6h41

Foto: Reprodução

A ausência de regras internacionais para a inteligência artificial e o pedido do CEO da Anthropic, Dario Amodei, para desacelerar o desenvolvimento dos modelos da tecnologia provocaram chumbo cruzado entre porta-vozes nos Estados Unidos, na China e na Europa e os principais laboratórios de IA americanos.

A Anthropic defende publicamente uma pausa global no setor desde junho, e o manifesto do executivo ganhou tração no sábado (12) após declarações do engenheiro Jacob Coxon, 27, ex-funcionário da empresa e da OpenAI. Coxon afirmou que as companhias estão “apostando com o futuro da humanidade”.

Enquanto o presidente americano, Donald Trump, criticou a implementação de qualquer regulamentação do setor, o Ministério das Relações Exteriores chinês disse que um freio tecnológico por parte das empresas seria uma “estratégia de contenção típica da Guerra Fria”. O Banco Central Europeu alertou que o bloco deve buscar autonomia.

Especialistas em governança dizem que a manifestação de Amodei reforça o risco da dependência global de tecnologias produzidas na China e nos Estados Unidos, países que concentram os modelos mais avançados.

O diretor do CGEE (Centro de Gestão de Estudos Estratégicos), Caetano Penna, compara a situação com os acordos de não proliferação nuclear. “Quem já tem armas nucleares redige os tratados e chama isso de segurança para a humanidade, mas cria barreiras de entrada”, afirma.

De acordo com Penna, uma desaceleração nos laboratórios americanos poderia diminuir o acesso de pesquisadores externos aos avanços. “O risco é que as regras sejam produzidas por meia dúzia de empresas de dois países, enquanto os efeitos são distribuídos pelo mundo”, diz. Para ele, o Brasil pode abordar o tema no G20, na ONU ou na Organização de Cooperação Mundial em Inteligência Artificial (Waico), fundada pela China.

A presidente do conselho do Anthropic Institute, Marina Favaro, que atua na formulação de políticas de desarmamento, afirma que a empresa desenvolve mecanismos de prestação de contas para garantir que todos os concorrentes reduzam o ritmo de pesquisas.

OpenAI, Google e xAI sinalizaram concordância com a desaceleração no avanço da tecnologia de ponta. Em um sinal dos temores dos investidores, as ações da japonesa SoftBank, que detém cerca de 13% da OpenAI, despencaram 10,7%.

O mercado de ações respondeu com recuos de até 1,2% no índice Nasdaq, que centraliza os papéis de tecnologia em Wall Street, 3,3% no coreano Kospi, onde estão fabricantes de chips como SK Hynix e Samsung Electronics. Embora a Bolsa de Hong Kong tenha avançado 0,2%, as ações do laboratório chinês de IA Z.AI desabaram 7,5%.

O CEO da OpenAI, Sam Altman, defendeu a criação de uma instituição independente para avaliar riscos e declarou que a segurança deve se sobrepor ao risco de processos antitruste. “Não acreditamos que precisamos esperar por uma isenção antitruste ou legislação para começar o trabalho de fornecer essa confiança”, disse em publicação no X.

Altman teve um breve encontro com Trump nesta segunda, após o presidente repudiar a iniciativa da Anthropic.

O presidente americano criticou propostas de regulação, sob o argumento de que podem provocar falências no setor. Em publicação na rede Truth Social, ele defendeu que o controle da tecnologia depende apenas de “um presidente forte”.

“Nós já temos um tremendo poder criminal e regulatório sobre as empresas. Existe uma teoria conspiratória maluca contra data centers, e quem está feliz com isso é a China. Quem ganhar a disputa por IA, ganha tudo”, escreveu.

Para o diretor do think tank Reglab, Renato Leite Monteiro, a falta de marcos regulatórios previsíveis expõe as empresas a decisões políticas arbitrárias. Ele cita o bloqueio imposto pelo governo americano aos modelos Mythos e Fable 5, da Anthropic, após o início da distribuição comercial. “A regulação serve para evitar que decisões pontuais paralisem operações”, afirmou.

Desde que Trump vetou o lançamento de um modelo da Anthropic fora dos Estados Unidos, houve uma reação na China e na Europa sobre a concentração de poder na Casa Branca e em território americano.

Nesta segunda, o Ministério das Relações Exteriores da China reforçou essa posição.

“O real propósito seria utilizar barreiras tecnológicas e monopólios na definição de regras para conter o desenvolvimento de IA da República Popular da China (RPC), preservar a hegemonia monopolista dos EUA em tecnologias de fronteira e excluir a RPC da governança global de IA”, disse o porta-voz do ministério, Guo Jiakun.

Também nesta segunda, a presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, afirmou que a Europa corre o risco de ficar sem acesso à IA devido a uma decisão externa. “Essa é uma forma de influência que nenhum parceiro comercial jamais teve sobre a Europa, e poderia ser usada em qualquer negociação, sobre tarifas ou impostos digitais, por exemplo.”

Segundo Lagarde, a Europa precisa de modelos que sejam “bons o suficiente” para a maioria das tarefas e que funcionem com infraestrutura europeia, para que a ameaça de isolamento perca sua força.

Para Penna, que trabalhou na formulação do Pbia (Plano Brasileiro de Inteligência Artificial), o Brasil deve reforçar os próprios investimentos em tecnologia. “Numa tecnologia que virou questão geopolítica, nenhum país vai parar ao mesmo tempo. O que precisamos é continuar avançando no Pbia, investindo no que efetivamente limita o nosso desenvolvimento, que é capacidade de computação e processamento, supercomputadores, energia, formação de pessoas, e capital para transformar pesquisa em inovação.”

ONU PEDE AÇÃO URGENTE


O alto comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu nesta segunda uma “ação urgente” para regulamentar a inteligência artificial devido aos riscos sem precedentes representados pelos sistemas mais avançados.

“Estamos à beira de uma mudança irreversível, que afeta não apenas a nós, mas também as futuras gerações da humanidade”, disse Türk. “Exorto os Estados e as empresas a se mobilizarem urgentemente em estruturas multilaterais. Todos os direitos humanos estão ameaçados [por essa tecnologia], incluindo o direito à vida”, avaliou.

O professor de políticas públicas da Universidade Federal do ABC (UFABC) Sérgio Amadeu aponta um conflito de interesses na atuação das empresas. “Uma empresa não é a solução para definir a regulação de seu próprio ramo. O lucro move a corporação, mas a sociedade e o meio ambiente não se movem apenas pelo lucro”, disse.

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