Os simpatizantes do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, tiraram mais crédito das eleições hondurenhas marcadas para o próximo dia 29, cujos resultados não devem ser reconhecidos pela comunidade internacional, ao anunciar que não vão participar do pleito mesmo se Zelaya for restituído.
Tanto para o candidato independente esquerdista Carlos Reyes, que anunciou hoje o fim de sua candidatura, como para a Frente de Resistência contra o Golpe de Estado, que exige a restituição de Zelaya, já é tarde para que um eventual retorno do governante deposto ao poder garanta eleições limpas.
Ambos consideraram que participar de tal processo eleitoral “legitimaria” o golpe de Estado ocorrido em 28 de junho.
“Para nós, participar das eleições significa que vamos legitimar o golpe de Estado”, disse Reyes a jornalistas ao comparecer ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para apresentar sua renúncia formal.
Reyes aparecia em terceiro lugar na preferência do eleitorado hondurenho em uma pesquisa feita há duas semanas, com 4% das intenções de voto. Segundo ele, “dessas eleições vai sair um Governo espúrio, sem aval do povo, que não vai ser legitimado pelo povo”.
“A participação em tal processo daria legitimidade ao regime golpista ou a seu sucessor, que se instalaria de forma fraudulenta”, opinou a Frente de Resistência, da qual também faz parte Reyes, em comunicado.
Ambos consideraram que não há condições para a realização de um pleito livre sob o regime instaurado após o golpe de Estado.
Os integrantes da Frente se manifestaram diariamente desde o golpe de Estado para exigir nas ruas a restituição de Zelaya. Em algumas ocasiões, seus protestos foram dissolvidos violentamente pela Polícia e pelo Exército, deixando manifestantes feridos, detidos e inclusive mortos.
Além disso, o presidente de fato hondurenho, Roberto Micheletti, declarou períodos de toque de recolher e inclusive a suspensão das garantias constitucionais durante nove dias, além de fechar veículos de imprensa contrários ao golpe por três semanas.
“O Exército está metido em tudo há repressão em todo o país” e “todas as instituições do Estado estão sendo controladas não só pelos militares, mas também pelos golpistas”, denunciou Reyes.
David Matamoros, magistrado do TSE, formado por três juízes nomeados pelo Congresso em maio, antes do golpe de Estado, defendeu que “há fatores mais do que suficientes para que as eleições possam ser consideradas limpas e transparentes”.
“Não sei em que poderiam se basear para dizer que as eleições são fraudulentas, porque em maio de 2008 houve a convocação de eleições primárias; em maio deste ano, foram convocadas eleições gerais, e todos estes eventos se deram com Manuel Zelaya como presidente”, argumentou.
Enrique Ortez, também magistrado do TSE, acrescentou que “há outro grupo que pensa o contrário; por isso, é preciso ir ao processo para que as maiorias se expressem e digam onde está o verdadeiro fiel da balança”.
Zelaya considerou como “correta” a decisão da Frente de Resistência e de Reyes porque, mesmo que seja restituído antes de 29 de novembro, estão denunciando “a fraude e a legitimação do golpe que querem fazer com o processo eleitoral”.
O presidente deposto acrescentou que o atual processo eleitoral está “viciado” e é “pouco limpo” porque ocorre “sob repressão, sob ditadura, com perseguição política, violações aos direitos humanos e fechamento de veículos de comunicação”.
Além de não reconhecer o pleito, a Frente convocou um boicote eleitoral por meio de “ações de desobediência civil”, como a retirada de propaganda eleitoral das ruas.
“Como responsáveis pelo processo, também não vamos permitir que haja incidentes ou sabotagens no processo eleitoral. Vamos atuar com energia e com força para impedir este tipo de situação”, alertou Matamoros.
Hoje, Vilma Morales, porta-voz de Micheletti, enviou uma carta ao secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, pedindo para que cumpra o compromisso assumido de reconhecer as eleições no caso da assinatura de um acordo com Zelaya – que o considerou como fracassado na semana passada.