O Paquistão entrou definitivamente em 2009 no conflito armado contra a insurgência talibã, com atentados quase diários e duas operações militares de grande escala que deslocaram centenas de milhares de civis de seus lares.
No começo do ano, o Governo liderado pelo secular Partido Popular (PPP) ainda realizava operações menores em fortificações fundamentalistas da fronteira afegã, em mais uma tentativa de diálogo com os talibãs paquistaneses que tinham estendido sua influência fora do cinto tribal, no Vale do Swat.
Mas o desafio dos insurgentes ao avançar em abril do Swat para outros distritos próximos e se aproximar a 100 quilômetros de Islamabad fez soar os alarmes da classe política paquistanesa e da comunidade internacional, com os Estados Unidos na liderança.
Em maio, com o presidente Asif Alí Zardari visitando Washington, o Governo considerou rompido o pacto alcançado com os talibãs no Swat e anunciou que o Exército tinha lançado uma operação de grande escala contra eles.
A ação militar causou em poucas semanas o que as autoridades qualificaram como o “maior” êxodo de população civil no país desde a sangrenta partilha do subcontinente e a criação do Estado islâmico em 1947.
Mais de dois milhões de pessoas abandonaram seus lares e buscaram refúgio em diferentes partes do noroeste do Paquistão, onde foram abertos vários campos de apoio.
Enquanto a opção militar parecia surgir como única solução para o extremismo, o Executivo conseguia o apoio das forças políticas nacionais e da população civil e intensificava seus esforços para obter ajuda econômica internacional para continuar com a luta.
Ainda no primeiro semestre e em plena ofensiva no Swat, tanto Zardari como outros dirigentes paquistaneses começaram a ameaçar estender a operação à região tribal do Waziristão do Sul, considerada o principal reduto do movimento Tehrik-i-Taliban Pakistan (TTP), que reúne diversas facções talibãs do país.
O comando militar iniciou em junho os preparativos de uma ofensiva neste distrito fronteiriço com o Afeganistão, com pactos com alguns líderes tribais rivais do TTP e bombardeios aéreos preliminares que foram acompanhados por um aumento dos ataques de aviões não tripulados dos EUA.
A cooperação mais próxima entre os serviços de inteligência paquistaneses e americanos durante estes meses permitiu no começo de agosto acabar com a vida do líder máximo da insurgência, Baitullah Mehsud, cuja morte abriu uma disputada transição de poder no TTP.
Enquanto esperava para conhecer as intenções da nova cúpula fundamentalista, liderada agora pelo jovem Hakimullah Mehsud, o Exército paquistanês decidiu adiar a complicada operação no Waziristão do Sul.
Mas os fundamentalistas fizeram uma demonstração de força em outubro com diversas ações suicidas e ataques de comandos terroristas contra mercados, prédios das forças de segurança, autoridades políticas e contra a ONU, que colocaram em xeque o Estado.
Segundo os analistas, o detonante final foi o assalto de mais de 20 horas de duração, com tomada de reféns, ao quartel general do Exército na cidade de Rawalpindi, coração do poder militar paquistanês.
Uma semana depois, em meados de outubro, quase 30.000 soldados lançaram no Waziristão a segunda grande operação do ano contra os talibãs, cuja força se estima em 10.000 combatentes, qualificada pela imprensa nacional como “a mãe de todas as batalhas”.
A realidade é que as tropas avançaram com pouca resistência e consideraram tomadas as principais fortificações talibãs em menos de um mês, enquanto os analistas observavam que a cúpula e o grosso dos fundamentalistas tinham fugido para outras demarcações próximas.
Os combates causaram, no entanto, um novo êxodo de civis, de quase 270.000 pessoas segundo a ONU, condenados a esperar o final do inverno paquistanês para voltar a seus lares.
A operação no Waziristão não interrompeu a onda de atentados, que castigaram sem piedade a cidade de Peshawar (noroeste), com centenas de mortos em ataques quase diários.
O final de 2009 pega ainda o Governo paquistanês em um de seus momentos de maior fraqueza, com péssimos índices de popularidade para Zardari.