Era o segundo dos três dias da festividade do Naw Roz, o ano novo afegão, quando Zemarai voltava para casa após visitar um parente junto com seis de seus sete filhos. Enquanto dirigia, Zemarai viu um comboio da Otan parado na rua, e freou, mas uma bala atravessou um dos vidros de seu carro e atingiu seu filho Zaryalai na cabeça.
“Fiquei abalado. Levantei o corpo imóvel do meu filho e saí do carro, caminhando em direção aos militares que tinham atirado, chorando e gritando para que também me matassem”, disse Zemarai.
Segundo ele, os soldados perceberam que tinham atacado um civil inocente, mas o corpo de seu filho permaneceu no local durante duas horas, enquanto as tropas isolavam a área. Quando uma equipe da Polícia afegã finalmente chegou ao local, os agentes colocaram o corpo do jovem no veículo e o levaram à sua casa.
“Talvez, se alguém tivesse chegado antes para levá-lo ao hospital, ele poderia ter sido salvo”, afirma Zemarai. Um comunicado da Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf), sob comando da Otan, afirmou que tropas britânicas tinham isolado a área ao redor do comboio, que precisou parar por causa de uma falha técnica.
Apesar de várias “advertências verbais”, segundo a nota, o carro de Zemarai continuou se aproximando do comboio, o que obrigou os militares a abrir fogo contra os ocupantes do veículo. Posteriormente, a Isaf classificou o incidente de “trágico”, e o pai foi chamado ao quartel-general do comando militar, em julho, onde recebeu uma carta na qual lhe ofereceram US$ 2,5 mil como indenização pela morte de seu filho.
“O Ministério de Defesa britânico encerrou a investigação sobre da morte de seu filho Zaryalai. Foi decidido que não tivemos nenhuma responsabilidade. No entanto, como exceção, estamos dispostos a oferecer US$ 2.500”, dizia a carta. A resposta enfureceu Zemarai.
“No Afeganistão, há uma tradição chamada “nanawate”, segundo a qual se alguém comete um crime contra uma pessoa, mas depois se arrepende e pede desculpas a ele ou à sua família, estes são obrigados a perdoar”, diz um aldeão pashtun da província de Logar (sul), Naweed Ahmad.
“Se os soldados tivessem se desculpado, como deveriam ter feito, provavelmente o pai não teria reagido assim”, afirmou Ahmad, que lembrou que os talibãs costumam se aproveitar de casos assim para recrutar civis afegãos.
Semanas depois, Zemarai se reuniu com alguns membros da insurgência talibã, na província de Herat (oeste), e os rebeldes o ofereceram um pagamento mensal para se unir à luta armada contra o governo afegão.
O pai ofereceu ainda dois de seus filhos para que fossem treinados como homens-bomba. “Enviarei-os durante este inverno” (hemisfério norte), disse.
Casos como o de Zemarai, que fazia parte da Aliança do Norte que lutou contra os talibãs na década de 90, são freqüentes no país. “Até 98% da população do Afeganistão sofrem de problemas psicológicos, depressão ou estresse emocional”, diz Yassin Babrak, um psiquiatra afegão.
Ele ressaltou que, apesar do grande esforço feito na reconstrução e no desenvolvimento social do país, a saúde mental dos afegãos não foi considerada. “Os representantes internacionais e o Governo afegão não devem esquecer que, sem um povo mentalmente são, o Afeganistão nunca poderá ser reconstruído”, afirmou.