As desigualdades de gênero continuam a comprometer a segurança hídrica mundial, afetando de maneira desproporcional mulheres e meninas. Apesar de serem as principais responsáveis pela coleta de água, elas permanecem excluídas da gestão e dos cargos de liderança no setor hídrico.
Essa é a conclusão do Relatório Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos, publicado nesta quinta-feira (19) pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em nome da ONU-Água.
O relatório aponta que mulheres coletam água em mais de 70% dos domicílios rurais sem acesso a serviços adequados. Mundialmente, todos os dias, elas e meninas passam um total de 250 milhões de horas nessa tarefa, tempo que poderia ser dedicado à educação, lazer ou geração de renda. Meninas menores de 15 anos têm maior probabilidade (7%) do que meninos da mesma idade (4%) de buscar água.
O estudo alerta que 2,1 bilhões de pessoas ainda não contam com água potável gerenciada de forma segura, com impactos maiores sobre mulheres e meninas. Elas enfrentam esforço físico, perda de acesso à educação e meios de subsistência, riscos à saúde e maior vulnerabilidade à violência de gênero, especialmente em locais com serviços inseguros ou pouco confiáveis.
Instalações sanitárias precárias afetam mulheres e meninas de modo desproporcional, especialmente em favelas urbanas e áreas rurais. A falta de sanitários e água para higiene menstrual causa vergonha e absenteísmo: estima-se que, entre 2016 e 2022, 10 milhões de adolescentes (15-19 anos) em 41 países faltaram à escola, trabalho ou atividades sociais por dificuldades relacionadas.
Apesar de seu papel central na provisão de água para uso doméstico, agricultura, preservação de ecossistemas e resiliência comunitária, as mulheres estão sub-representadas na governança, financiamento, serviços e tomada de decisões no setor hídrico.
Desigualdades na posse de terras e propriedades impactam diretamente o acesso das mulheres à água, vinculando direitos à terra à disponibilidade hídrica para usos produtivos, como a agricultura. Leis discriminatórias colocam mulheres em desvantagem social e econômica; em alguns países, homens detêm o dobro de terras em comparação às mulheres.
O diretor-geral da Unesco, Khaled El-Enany, enfatiza que garantir a participação das mulheres na gestão e governança hídrica é fundamental para o progresso e desenvolvimento sustentável. ‘Devemos intensificar os esforços a fim de proteger o acesso de mulheres e meninas à água. Este não é apenas um direito básico, pois quando as mulheres têm acesso igual à água, todos se beneficiam’, afirmou.
Para o presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agrícola (FIDA) e da ONU-Água, Alvaro Lario, é hora de reconhecer o papel central das mulheres nas soluções hídricas. ‘Precisamos de mulheres e homens que administrem a água lado a lado, como um bem comum que fornece benefícios a toda a sociedade’, disse.
O relatório é divulgado anualmente no contexto do Dia Mundial da Água, celebrado no próximo domingo (22).
Entre as recomendações para avanços significativos, o estudo sugere eliminar barreiras legais, institucionais e financeiras aos direitos iguais de mulheres à água, terra e serviços; investir em dados hídrico-ambientais desagregados por sexo para expor desigualdades e orientar políticas; valorizar o trabalho não remunerado relacionado à água em planejamento, precificação e investimentos; e fortalecer a liderança e capacidade técnica das mulheres, especialmente em áreas científicas e técnicas da governança hídrica.