O alto comissário da Nações Unidas para os Direitos Humanos, Volker Türk, declarou que a violência contra as mulheres, incluindo feminicídios, configura uma emergência global. Em discurso proferido nesta sexta-feira (27) perante o Conselho de Direitos Humanos da ONU, em Genebra, ele revelou que cerca de 50 mil mulheres e jovens foram assassinadas em todo o mundo em 2024, a maioria delas por membros de suas próprias famílias.
Türk lamentou especialmente casos de abusos revelados recentemente, como o de Gisèle Pelicot, na França, e o do pedófilo norte-americano Jeffrey Epstein. O caso de Pelicot ganhou notoriedade mundial: a francesa de 71 anos foi drogada e violada por dezenas de homens desconhecidos, recrutados pelo ex-marido ao longo de uma década. ‘Tanto o caso Pelicot quanto os arquivos Epstein demonstram a extensão da exploração e do abuso de mulheres e jovens’, afirmou Türk. ‘Alguém acredita que não existem muitos outros homens como Dominique Pelicot ou Jeffrey Epstein? Esses abusos horríveis são facilitados por sistemas sociais que silenciam as mulheres e protegem os homens poderosos da responsabilização.’
O alto comissário apelou aos países para que investiguem todos os alegados crimes, protejam as sobreviventes e garantam justiça sem medo ou favorecimento. Ele alertou que as mulheres e jovens enfrentam ameaças cada vez maiores aos seus direitos.
Além disso, Türk expressou preocupação com a normalização do uso da força para resolver conflitos em todo o mundo, criando um ‘deserto dos direitos humanos’. ‘Não devemos regressar à violência como base para a organização do mundo’, exortou. Ele destacou que o número de conflitos armados quase duplicou desde 2010, alcançando cerca de 60, e que o uso da força para resolver disputas está se tornando mais frequente.
O discurso também condenou a indiferença pelas violações do direito internacional humanitário. Türk mencionou que, há dez anos, um ataque a um hospital provocaria indignação global, mas dados recentes indicam em média dez ataques por dia a instalações de saúde. ‘A conclusão é clara: ignorar as atrocidades só alimenta os massacres’, alertou. ‘O mundo não pode ficar de braços cruzados enquanto o edifício do direito internacional humanitário e dos direitos humanos se desmorona diante dos nossos olhos.’
Em postagem na rede social X, Türk reforçou: ‘Os autoritários tentam convencer as pessoas de que são impotentes, mas os direitos humanos nos lembram que não o somos.’