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Nova candidata a droga antiobesidade apresenta bons resultados em testes iniciais

Os achados, publicados nesta terça (17) na revista Nature Metabolism, mostram que o SANA provocou uma redução aproximada de 3% do peso corporal em 15 dias

Redação Jornal de Brasília

17/06/2025 23h38

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Banco de Imagens

GABRIEL ALVES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Uma droga experimental para controle da obesidade apresentou resultados promissores em estudos iniciais. Chamada de SANA (ácido salicílico nitroalqueno), a substância parece induzir perda de peso sem alterar o apetite ou provocar efeitos colaterais comuns aos medicamentos já utilizados, como perda de massa muscular e desconforto gastrointestinal.

Os resultados até o momento foram observados somente em camundongos -impedindo de forma clara o ganho de peso induzido por dieta, protegendo o fígado e mantendo o controle glicêmico– e em humanos na fase 1 de pesquisa clínica. Antes de chegar às prateleiras, a droga precisará avançar pelas fases clínicas 2 e 3, com um número progressivamente maior de participantes.

Os achados, publicados nesta terça (17) na revista Nature Metabolism, mostram que o SANA provocou uma redução aproximada de 3% do peso corporal em 15 dias, comparável à eficácia da semaglutida (princípio ativo do Ozempic, por exemplo) no mesmo período. Uma diferença é a forma de administração: dois comprimidos diários, em vez de uma injeção semanal.

A novidade central é o mecanismo de ação inédito em tratamentos contra a obesidade: a “termogênese dependente de creatina”. Testes em camundongos mostraram que o SANA promoveu perda e prevenção do ganho de peso induzido por dieta sem afetar animais com dieta normal. Houve também redução significativa do acúmulo de gordura e aumento da massa magra, além de efeitos protetores no fígado e melhorias nos níveis de insulina.

Os resultados em humanos vêm de ensaio clínico fase 1, duplo-cego, controlado por placebo, realizado com 41 voluntários, entre saudáveis e obesos. Participantes obesos receberam doses diárias de 200, 300 ou 400 mg, divididas em duas administrações diárias durante 15 dias. Além da perda de peso, houve melhora na resistência à insulina e composição corporal, reduzindo gordura sem perda de massa magra.

Juliana Camacho-Pereira, pesquisadora da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), explica o mecanismo: “As células adiposas estimuladas com SANA utilizam creatina e ATP [trifosfato de adenosina] para formar fosfocreatina, mecanismo não convencional de termogênese. Ao contrário dos termogênicos clássicos como o DNP [2,4-dinitrofenol], que dissipam energia impedindo a formação de ATP e elevando perigosamente a temperatura corporal, o SANA mantém a geração de ATP, sendo específico para o tecido adiposo”.

Liderada por cientistas uruguaios, a pesquisa contou com outros brasileiros da UFRJ e de outras instituições, como USP (Universidade de São Paulo) e Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

O ATP é a principal molécula energética das células. Funciona como uma moeda energética necessária para quase todos os processos biológicos vitais, desde a contração muscular até a síntese de proteínas, permitindo o bom funcionamento celular e do organismo como um todo.

Em comparação aos agonistas do receptor GLP-1 (como semaglutida, liraglutida e tirzepatida) atualmente usados no tratamento da obesidade, que podem causar perda de massa muscular, o SANA preservou e até aumentou a massa magra em animais, o que abre a possibilidade de certa compensação de efeitos numa eventual combinação terapêutica.
Embora ainda experimental e em estágio inicial, a chegada de novas drogas como o SANA é positiva, diz

Levimar Araújo, endocrinologista e professor da Faculdade Ciências Médicas de Minas Gerais.

“O estudo aponta a importância dessas drogas, tanto para oferecer uma nova opção quanto para permitir um sinergismo, ou seja, a adição desta medicação a outros tratamentos. Uma das formas de medicação para emagrecer se baseia na termogênese, que busca a quebra de gordura, promovendo um efeito termogênico que aumenta o metabolismo e, consequentemente, diminui a gordura”, analisa. “Pouco tempo atrás a gente não tinha tanta coisa para utilizar para o tratamento da obesidade.”

“Esta é a primeira vez que um medicamento demonstrou ativar farmacologicamente a termogênese baseada em creatina, podendo levar a uma abordagem terapêutica nova para obesidade em humanos. Isso abre um caminho terapêutico totalmente novo para obesidade e distúrbios metabólicos, complementar às terapias GLP-1, mas focado na capacidade do corpo de queimar energia, não apenas na supressão do apetite”, disse Carlos Escande, pesquisador do Instituto Pasteur de Montevidéu e diretor científico da uruguaia Eolo Pharma, responsável pelos estudos, em comunicado à imprensa.

“O SANA é resultado de mais de uma década de ciência rigorosa na América Latina, com potencial para remodelar como tratamos obesidade e resistência à insulina”, disse María Pía Garat, CEO da Eolo Pharma.

“Estamos orgulhosos de sermos a primeira biotecnológica da América do Sul a levar uma molécula inédita da descoberta até o estudo clínico. Esperamos avançar essa nova terapia inovadora nos ensaios clínicos para oferecer opções mais seguras e eficazes para tratar a obesidade.”

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