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Nobel da Paz premia Navi Pillay, jurista que aponta genocídio em Gaza

No ano passado, uma comissão da ONU liderada por Pillay, que investigou a guerra na Faixa de Gaza, concluiu que Israel havia cometido genocídio contra os palestinos

Redação Jornal de Brasília

09/10/2026 10h04

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Foto por FABRICE COFFRINI / AFP

MANOELLA SMITH
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

O comitê norueguês do Nobel anunciou nesta sexta-feira (9) que Navanethem ‘Navi’ Pillay venceu o Nobel da Paz de 2026 por “seus esforços para promover a paz e o direito internacional”. Jurista sul-africana, de origem indiana, ela foi juíza do Tribunal Penal Internacional e Alta Comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos.

No ano passado, uma comissão da ONU liderada por Pillay, que investigou a guerra na Faixa de Gaza, concluiu que Israel havia cometido genocídio contra os palestinos. Tel Aviv condenou o relatório.
“Pillay responsabilizou Estados e líderes nacionais por suas ações, levou esperança às vítimas de violência e conflitos e demonstrou uma sólida bússola moral ao longo de sua extensa carreira”, afirmou o comitê ao anunciar o prêmio.

Questionado pela agência de notícias AFP, o comitê diz que não toma posição sobre se a campanha militar israelense em Gaza constitui genocídio. Tel Aviv criticou a escolha, afirmando que a entrega do prêmio a Pillay legitima o “ódio anti-Israel”. Já organizações internacionais celebraram o anúncio, afirmando que a decisão representa uma vitória da justiça internacional.

A comissão especial da ONU investigou a fundo tanto o ataque terrorista do 7 de Outubro, que serviu de estopim para a guerra, quanto a retaliação israelense na Faixa de Gaza e também na Cisjordânia ocupada.

A investigação deu origem a um relatório que acusa Israel e o Hamas de crimes de guerra.

O documento também conclui que Israel cometeu genocídio em Gaza com o objetivo de “destruir os palestinos” que vivem no território e culparam autoridades israelenses de alto escalão, incluindo o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, por incitar tais atos.

Israel, que se recusou a cooperar com a investigação, rejeitou o documento, chamando de falsas as acusações. “

“Hoje testemunhamos em tempo real como a promessa do ‘nunca mais’ é quebrada e testada diante dos olhos do mundo. O genocídio em curso em Gaza é um ultraje moral e uma emergência legal”, disse Pillay a jornalistas logo após a divulgação do relatório.

O Prêmio Nobel da Paz deste ano destacou a importância de manter uma ordem internacional organizada, afirmou o comitê em sua justificativa. “O sistema de direito internacional está sob enorme pressão, e suas instituições estão sendo atacadas”, declarou.

“Estamos vendo uma guinada em direção à política de poder, em detrimento dos marcos jurídicos e do respeito global ao direito e à justiça. Sempre que a força prevalece sobre o direito, a estabilidade, a confiança e a coexistência pacífica são prejudicadas.”

A sul-africana nasceu em 23 de setembro de 1941. Em 1967, abriu seu próprio escritório de advocacia e, durante o apartheid, defendeu ativistas de várias organizações, incluindo membros do Movimento da Consciência Negra e o próprio marido, preso sob a Lei de Terrorismo.

O comitê do Nobel ressaltou que Pillay atuou “em alguns dos principais processos judiciais internacionais de nosso tempo”. Após o fim do apartheid, foi juíza do Tribunal Penal Internacional para Ruanda (1995-2003), presidindo-o nos últimos quatro anos. Participou do julgamento de Jean-Paul Akayesu, que estabeleceu que estupro e violência sexual podem constituir atos de genocídio.

Na África do Sul, ajudou a incluir a cláusula de igualdade na Constituição, que proíbe discriminação por raça, gênero, religião e orientação sexual, e cofundou a Equality Now, organização internacional de direitos das mulheres.

Ao todo, 287 candidatos haviam sido indicados à láurea neste ano, dentre os quais 208 eram indivíduos, e 79, organizações. O número é menor do que o do ano passado, quando houve 338 indicações, e do que o de 2016, quando houve um recorde de 376 nomes.

Mais curiosidades sobre a lista de indicados, no entanto, só poderão ser sanadas daqui a 50 anos. Os candidatos e aqueles que os indicaram —que envolvem, entre outros, líderes de países e quem eventualmente já foi laureado— ficam em sigilo por cinco décadas.

No ano passado, a vencedora do Nobel da Paz foi a líder opositora venezuelana María Corina Machado, que posteriormente entregou sua medalha ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Na época, ela disse que o republicano merecia o premio pela captura do ditador deposto Nicolás Maduro em uma operação militar em Caracas.

O episódio deixou o comitê norueguês numa posição delicada, depois de a campanha aberta de Trump pelo prêmio ter submetido a instituição a uma pressão sem precedentes —ainda que María Corina tenha dado a medalha para Trump, a honra continua sendo dela, uma vez que o prêmio não pode ser transferido, compartilhado ou revogado.

O Nobel foi concedido pela primeira vez em 1901. Inicialmente, eram cinco categorias: paz, literatura, química, física e medicina. Uma sexta —economia— foi adicionada décadas mais tarde, em 1969.

Até a metade do século 20, os laureados na principal categoria eram “políticos ativos que procuravam promover a paz internacional, a estabilidade e a justiça por meio da diplomacia e de acordos internacionais”.

Desde o fim da Segunda Guerra, porém, o prêmio passou a reconhecer esforços nas áreas de desarmamento, democracia e direitos humanos. Na virada para o século 21, o foco foi ampliado para incluir iniciativas que tentem conter a crise climática causada pelo homem.

RELEMBRE OS DEZ VENCEDORES ANTERIORES DO NOBEL DA PAZ

2015: Quarteto para o Diálogo Nacional da Tunísia, pela contribuição decisiva na construção de uma sociedade plural no país.

2025: A líder opositora venezuelana María Corina Machado por sua atuação pela democracia na Venezuela

2024: A organização Nihon Hidankyo, que atua pela abolição das armas nucleares e foi criada por sobreviventes das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, os chamados hibakushas.

2023: A ativista dos direitos humanos iraniana Narges Mohammadi, 51, por apoiar a luta das mulheres pelo direito de elas terem vidas plenas e dignas.

2022: O ativista da Belarus Ales Bialiatski, o Memorial, grupo de direitos humanos da Rússia, e o Centro para Liberdades Civis da Ucrânia, por demonstrarem a importância da sociedade civil para a paz e a democracia.

2021: Os jornalistas Maria Ressa (filipina) e Dmitri Muratov (russo), pela defesa que fazem da liberdade de expressão, pré-requisito para a democracia e a paz duradoura.

2020: Programa Mundial de Alimentos (PMA), por atuar como uma força motriz nos esforços para prevenir o uso da fome como arma de guerra e conflito.

2019: O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, que assinou acordo de paz que pôs fim a duas décadas de hostilidades com a Eritreia.

2018: O congolês Denis Mukwege e a iraquiana Nadia Murad, que denunciaram a violência em relação a vítimas de violência sexual como arma de guerra.

2017: Campanha Internacional para Abolir Armas Nucleares (Ican), por chamar a atenção para o risco de armas nucleares.

2016: Juan Manuel Santos, ex-presidente da Colômbia que negociou o acordo de paz com as Farc

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