Um transatlântico histórico se tornará o maior recife artificial do mundo quando chegar ao seu local de descanso final, na costa do Golfo, no estado americano da Flórida. Empresas de mergulho concorrentes estão disputando para que o enorme navio seja afundado mais perto delas, e uma organização entrou com uma ação judicial para impedir que o navio seja afundado.
O SS United States, um navio de quase mil pés, ou 305 metros, que quebrou o recorde de velocidade transatlântica em sua viagem inaugural, em 1952, está passando por meses de limpeza profunda no Porto de Mobile, no estado do Alabama.
Os trabalhadores vão esvaziar e limpar todos os 120 tanques de combustível, e remover produtos químicos, fiação, plásticos e vidro.
“Tem muita coisa nojenta nas embarcações construídas nos anos 50”, diz Alex Fogg, coordenador de recursos costeiros do Condado de Okaloosa. “Basicamente, quando estiver pronto para ser instalado, será uma estrutura de aço e alumínio.”
O SS United States deve se juntar aos mais de 500 recifes artificiais do Condado de Okaloosa, que incluem uma dezena de outros navios menores naufragados. As autoridades esperam atrair turistas e gerar milhões de dólares anualmente para lojas de mergulho, barcos de pesca fretados e hotéis, além de fornecer habitat para espécies essenciais de peixes e outras formas de vida marinhas.
“O nosso objetivo é ser a capital do mergulho no estado da Flórida”, diz Fogg. “Estamos tentando superar até as Flórida Keys.”
Fogg conta que eles esperam afundar o SS United States até o final do ano em um dos três locais permitidos, todos a pouco mais de 37 km de Destin, Flórida. Os três locais têm a mesma profundidade, aproximadamente 55 metros de água até chegar à areia, mas o navio é tão alto que os conveses superiores ficarão a 18 metros da superfície.
“Isso fica bem dentro do perfil dos mergulhadores iniciantes, e as profundidades maiores certamente atrairão os mergulhadores técnicos e avançados”, explica Fogg.
Autoridades do Condado de Bay concordaram em oferecer 3 milhões de dólares (18 milhões de reais) para que o Condado de Okaloosa afunde o SS United States mais perto da cidade de Panama City Beach.
Dan Rowe, presidente e CEO da organização Visit Panama City Beach, diz que sua região tem uma das maiores frotas de barcos de mergulho do norte da costa do Golfo. O Condado de Bay tem um longo histórico de desenvolvimento de tecnologias usadas na exploração submarina, e a escola de mergulho da Marinha dos EUA fica nas instalações da Atividade de Apoio Naval de Panama City
“O mergulho faz parte do nosso DNA”, diz Rowe.
Autoridades do Condado de Escambia estão oferecendo apenas 1 milhão de dólares para que o navio seja afundado mais perto de Pensacola, mas Darien Schaefer, presidente e CEO da organização Visit Pensacola, diz que a região, a oeste, fica a apenas 22 km do USS Oriskany, outro local de mergulho muito visitado, que foi afundado em 2006. Ele diz que os mergulhadores poderiam visitar os dois naufrágios no mesmo dia.
“Apenas achamos que seria um local de mergulho lendário se esses dois naufrágios ficassem tão próximos”, diz Schaefer.
O SS United States chegou ao Alabama no início de março, após ser rebocado por 12 dias saindo do rio Delaware, na Filadélfia, onde passou quase três décadas. O Condado de Okaloosa conseguiu assumir a titularidade do navio depois que um conflito de locação que durou anos foi resolvido em outubro, entre a organização responsável pela conservação do navio e seu proprietário.
Várias organizações tentaram restaurar o SS United States ao longo dos anos, mas todos os planos acabaram sendo abandonados devido ao alto custo. Recentemente, o aumento da atenção da imprensa gerou mais apelos para preservar o navio, e uma organização chamada New York Coalition chegou a entrar com uma ação na justiça federal de Pensacola, pedindo que o juiz impeça o afundamento de um navio com tanta relevância histórica.
Mas Fogg diz que impedir que o SS United States se torne um recife só o mandaria para o ferro-velho. Além disso, o plano do condado de gastar US$10,1 milhões (R$60 milhões) na compra, transporte, limpeza e afundamento do navio inclui 1 milhão de dólares (6 milhões de reais) para a criação de um museu em terra para promover a história do navio.
“Quando o navio estiver instalado como recife artificial, mais pessoas irão visitá-lo no primeiro mês embaixo d’água do que já o visitaram nos últimos 30 anos”, aposta Fogg.
O SS United States, mais de 30 metros maior que o RMS Titanic, já foi considerado um exemplo da engenharia americana, servindo também como embarcação militar capaz de transportar milhares de soldados. Sua viagem inaugural quebrou o recorde de velocidade transatlântica em ambas as direções, quando chegou a uma velocidade média de 36 nós, ou 66 km/h, como a Associated Press noticiou a bordo do navio.
O navio atravessou o Oceano Atlântico em três dias, 10 horas e 40 minutos, superando o tempo do RMS Queen Mary em 10 horas. Até hoje, o SS United States detém o recorde de velocidade de um navio transatlântico.
Estadão Conteúdo