SALVADOR NOGUEIRA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Com a missão Artemis 2 concluída com sucesso, a Nasa certamente celebra a ocasião histórica. Mas não por muito tempo. Há muito trabalho pela frente se a agência quiser fazer desse marco de fato o primeiro passo na árdua tarefa de estabelecer uma presença constante na Lua e, então, preparar o terreno para uma futura missão tripulada a Marte.
Ao ser nomeado administrador, em dezembro do ano passado, após uma série de idas e vindas, Jared Isaacman concentrou esforços em fazer uma rápida e agressiva reformulação do programa Artemis, anunciada poucos dias antes do voo inaugural de Reid Wiseman, 50, Victor Glover, 49, Christina Koch, 47, e Jeremy Hansen, 50 -o primeiro sobrevoo lunar tripulado do século 21.
A palavra de ordem foi aumentar a cadência de voos, ou seja, realizar missões do programa de exploração com maior frequência e mais clareza de propósito. Para isso, foi introduzida uma missão de ínterim antes daquela que seria a destinada a realizar a primeira tentativa de pouso tripulado neste século.
Originalmente, essa alunissagem aconteceria na Artemis 3, em 2028. A data foi mantida, mas ela agora é a Artemis 4, e a terceira missão realizará, em órbita da Terra e já no ano que vem, testes com os futuros módulos de pouso -a serem fornecidos à Nasa pelas empresas SpaceX e Blue Origin, ambas em uma competição entre si para ver quem terá a chance de realizar esse histórico pouso inaugural do programa.
A grande questão é: algum desses módulos estará pronto para esses testes orbitais no ano que vem e, mais ainda, para um voo até a superfície da Lua em pouco mais de dois anos?
Há razão para dúvidas, menos com relação a 2027 do que com relação a 2028. Uma das vantagens de introduzir essa “nova” Artemis 3 (que espelha uma escolha feita pela Nasa no século passado com a Apollo 9, que testou o módulo lunar em órbita terrestre em março de 1969) é que os dois veículos candidatos a realizar o primeiro pouso podem ser lançados em versões mais “cruas”, destinadas apenas para testes de acoplagem e desacoplagem, além de manutenção de tripulações a bordo.
Eles são o Blue Moon Mark 2, da Blue Origin, e o Starship, da SpaceX. Ambos são muito maiores que seus equivalentes do programa Apollo (o Starship quase inimaginavelmente maior, com 50 metros de altura) e exigirão procedimentos de reabastecimento em órbita e demonstrações de pouso sem tripulação antes que possam cumprir a missão lunar.
Lori Glaze, gerente do programa de exploração da Nasa, diz que as duas empresas reagiram bem às solicitações de planos para acelerar o desenvolvimento dos veículos.
Nesse contexto, ajuda não só a decisão de criar a Artemis 3 (“a demonstração em órbita da Terra, esperamos, vai reduzir alguns dos requisitos para esses módulos de pouso para nos permitir testar uma versão inicial que não exige tantos recursos”, disse ela, em entrevista ao site Ars Technica), como também a decisão de cancelar a estação espacial orbital lunar Gateway, planejada como um ponto de parada para missões à superfície.
A ser instalada em uma órbita bem alta ao redor da Lua (para facilitar a chegada e a partida das cápsulas Orion), ela tornava o trabalho dos módulos de pouso bem mais difícil, exigindo mais reabastecimentos. Com o cancelamento (e o uso de partes do antigo Gateway já fabricadas ou em fabricação para uma missão não tripulada que testará propulsão nuclear numa viagem a Marte), o trabalho da Artemis 4 ficou um pouco mais fácil.
Ainda assim, os progressos são lentos, e não há nesse momento sinal de que possam ser muito acelerados. A SpaceX ainda está às voltas com a qualificação do foguete Starship (cujo segundo estágio é o próprio módulo de pouso lunar), que já chegou à sua terceira versão, a ser lançado pela primeira vez em cerca de um mês.
A empresa de Elon Musk quer demonstrar a capacidade de reabastecimento em órbita ainda neste ano e estar pronta para dar suporte à Artemis 3 com uma versão minimamente funcional do Starship no ano que vem.
Já a Blue Origin segue desenvolvendo o seu Blue Moon Mark 2, mas tem uma carta na manga –o Blue Moon Mark 1, módulo de pouso originalmente destinado apenas a carga, mas que tem um porte capaz de ser adaptado para um voo tripulado, se a Nasa tiver pressa. Essa versão cargueira está em fase final de teste e deve ser lançada e realizar uma alunissagem ainda neste ano.
A empresa tem planos de adaptar o sistema de suporte de vida desenvolvido para o Mark 2 no Mark 1 para criar um híbrido, capaz de realizar as primeiras missões lunares. Talvez essa seja a única chance para a Nasa cumprir a meta de ter o primeiro pouso com a Artemis 4 em 2028.
A base lunar e os pés no chão
Como parte da reformulação do programa, Isaacman decidiu cancelar o Gateway e substituí-lo por uma futura base lunar tripulada. O novo plano tem três fases, a primeira vai de 2026 a 2029, a segunda de 2029 a 2032, e a terceira de 2032 em diante. Cada uma vem com uma etiqueta de preço de US$ 10 bilhões e faz uma transição entre missões robóticas e não tripuladas.
Para a fase 1, a Nasa realizaria até 25 missões, com 21 pousos na Lua, mas a imensa maioria por cargueiros robóticos, como os recém-desenvolvidos pelas empresas Firefly e Intuitive Machines, que já realizaram viagens lunares, e outros que estão por vir, como os da Blue Origin e da Astrobotic. Ainda assim, nas 25 o plano inclui duas tripuladas, Artemis 4 e 5. Essa fase preparatória levaria até quatro toneladas de cargas úteis à superfície.
Na segunda fase, as coisas começam a se tornar mais intensas, com a instalação de reatores nucleares, rovers para tripulação (com ou sem pressurização interna) e sistemas de habitação permanente. A partir de 2032, e a terceira fase, começaria a presença semipermanente na Lua, com tripulações realizando expedições à base, como já acontece hoje na Estação Espacial Internacional (cerca de mil vezes mais perto).
Tudo isso é muito bonito e empolgante. Mas, no meio do caminho, tem a realidade.
Os EUA andam nessa fase estranha em que o que o governo faz e o que o governo fala são duas coisas inteiramente diferentes.
Ao mesmo tempo em que esses planos grandiosos de exploração são apresentados, a Casa Branca apresenta ao Congresso sua proposta de orçamento para a Nasa no ano que vem, que sugere cortar em quase 25% a verba total da agência, cancelando mais de 40 missões.
No ano passado, primeiro de Trump 2, foi a mesma coisa, e o Congresso reverteu, mantendo ao menos o mesmo patamar aproximado de investimento dos anos anteriores. Não é improvável que aconteça de novo neste ano.
Em carta aos funcionários da agência, Isaacman deu um conselho: “Deixem a política com os políticos”.
Para ele, os engenheiros, técnicos e cientistas devem se concentrar em realizar as missões dadas, em vez de discutir questões orçamentárias. Fácil falar, talvez mais difícil fazer.
Após um programa agressivo de demissões voluntárias e dispensas no ano passado, a agência tem hoje uma força de trabalho bem menor do que nos tempos da Apollo -que dirá em orçamento que, no auge do Apollo, era 5% do gasto federal, e atualmente gira em torno de 0,5% (0,4% se Trump conseguir implementar os cortes).
Um leão por dia
Mesmo pensando nos planos mais imediatos, há desafios consideráveis a superar. Um voo da dupla SLS e Orion, respectivamente foguete e cápsula usados nas missões Artemis 1 e 2, até hoje não saiu por menos de US$ 4 bilhões. E a cadência (pelo menos) anual está longe de ser algo trivial. Entre os dois únicos voos do SLS se passaram quase quatro anos.
A Artemis 2, apesar do sucesso retumbante, também apresentou problemas que requerem atenção imediata. O mais sério deles, embora não tenha impactado no desenvolvimento da missão, envolveu uma perda de hélio pressurizante em válvulas do tanque de oxigênio do sistema de propulsão do módulo de serviço da cápsula, contribuição europeia ao projeto.
Segundo Amit Kshatriya, administrador associado da Nasa, as equipes fizeram um esforço de caracterização do problema ainda no espaço (uma vez que o módulo de serviço seria ejetado e queimaria na atmosfera sem retornar intacto para estudo posterior) e devem ter de redesenhar o sistema de válvulas para a missão Artemis 4. Para a terceira missão, em órbita terrestre, em princípio a atual configuração não oferece riscos.
Diz ele que será possível fazer o trabalho até a missão de 2028 e que o problema é muito menos grave que o que envolveu o escudo térmico da Artemis 1 e obrigou a uma mudança de planos para a trajetória de reentrada da Artemis 2, uma vez que ele era do mesmo modelo, com um novo design destinado a aparecer só na Artemis 3.
Nada disso é inesperado ou incomum em um programa que tenta viabilizar o que até agora jamais passou de um sonho -o estabelecimento de uma presença constante na Lua. Mas é inevitável que gere atrasos, o que incomoda os americanos, com a China fungando em seus cangotes.
Com a Artemis 2, os EUA venceram a primeira etapa dessa nova corrida para a Lua. Mas os chineses têm planos em andamento para realizar sua primeira alunissagem tripulada até 2030. A projeção americana de chegar antes, em 2028, é, no mínimo, otimista.
A disputa naturalmente põe a ambição de uma viagem tripulada a Marte como um objetivo mais distante. Nenhum dos dois países tem um projeto concreto para tal empreitada, mas ambos seguem de olho no planeta vermelho.
A China se concentra em um ambicioso retorno robótico de amostras, marcado para o começo dos anos 2030; a Nasa desistiu, ao menos por ora, de ir recolher as rochas separadas pelo rover Perseverance, mas tem agora um novo plano para lançar para lá uma nave experimental com propulsão nuclear -tecnologia que, se bem-sucedida, pode finalmente viabilizar a jornada marciana tripulada, muito mais difícil e perigosa que as viagens lunares.