No início, about it a voz custa a sair, o homem parece fraco demais para falar. Mas conforme o papo avança, ele se anima.
Sorri, gesticula, conta de suas visitas ao Brasil e faz críticas ao presidente da Bolívia, Evo Morales. Nem parece que está há sete dias sem comer.
Fernando Moreno, 28 anos de idade, é um entre as centenas de moradores da capital do departamento (estado) de Santa Cruz, Santa Cruz de la Sierra, que fazem greve de fome na praça 24 de Setembro, no centro da cidade, contra a reforma constitucional e a favor da autonomia para o estado.
“Quero que amanhã meus filhos sejam livres, possam se expressar”, diz Moreno. Na avaliação dele, o governo de Evo quer implementar “uma ditadura” e age com “soberba”, assim como o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, e dirigente cubano, Fidel Castro.
Por isso, Moreno diz estar disposto, inclusive, a enfrentar a polícia, caso ela tente acabar com o protesto.
Até ontem à tarde, 38 grevistas haviam sido retirados do local por problemas como desidratação, hipoglicemia e hipertensão pelo estresse, segundo a encarregada do serviço médico, Marta Ribeiro.
Na grande tenda armada pelas organizações dos bairros de Santa Cruz, Moreno também passou mal: teve pressão alta na manhã de ontem, mas depois melhorou. “Pelo meu povo vou até o fim, sigo feliz e contente”, afirma o militante.
A crise de pressão surgiu após uma noite que Moreno diz ter passado em claro, pois era sua vez de cuidar da barraca e dos pertences dos manifestantes. “Temos que tomar conta, a polícia está com Evo”, diz.
O patrulhamento é feito pela Guarda Municipal, que não usa arma de fogo, só cassetetes. O governo anunciou que está enviando 400 policiais de estados vizinhos para Santa Cruz, para cuidar dos bens públicos.
Moreno fica deitado a entrevista toda, em um colchão acomodado sobre um estrado de madeira que, encostado em vários outros, forma um grande dormitório quadrado e cheio de tons, graças aos cobertores coloridos.
Ao lado da cama, a sandália com o símbolo da bandeira do Brasil revela a paixão pelo país que diz adorar, especialmente as praias, que visita constantemente. Ao seu lado, Facundo Flores, 40 anos de idade, que considera válido lutar pela autonomia.
Com ela, diz Flores, os moradores de Santa Cruz terão oportunidade de “reclamar”, por estarem próximos a um governo que terá mais poder.