JOÃO GABRIEL
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)
Moradores de Caracas, capital da Venezuela, relatam barulho, instalações destruídas, ruas vazias, comércio fechado e a expectativa de que manifestações –sobretudo chavistas– ganhem tamanho após o governo de Donald Trump, dos Estados Unidos, atacar o país e capturar Nicolás Maduro.
No final da tarde deste sábado (3), mesmo dia da ofensiva militar, a Folha conversou com uma brasileira e um jornalista venezuelano, ambos residentes da cidade e que pediram para não serem identificados.
Essa foi a primeira ofensiva dos EUA na América do Sul em décadas, e mirou a Venezuela, país com a maior reserva de petróleo do mundo e berço do chavismo, movimento político que se opõe à influência estadunidense na região.
“Vamos governar a Venezuela até que haja uma transição adequada e justa”, disse o presidente dos EUA, Donald Trump, após a operação. Segundo ele, a partir de agora serão as empresas dos Estados Unidos que vão controlar o petróleo da Venezuela.
“Vamos ficar pelo tempo que for adequado para uma transição. Vamos governar neste tempo, vamos ter empresas americanas que vão entrar, vão injetar bilhões de dólares, vão consertar a péssima infraestrutura”, completou.
Segundo o governo Trump, o ataque foi autorizado pelo presidente no final da noite de sexta-feira (2). Maduro foi levado por Forças Espeicais americanas e, ao final deste sábado (3), desembarcou em Nova York, onde será julgado por crimes como narcoterrorismo e tráfico de cocaína.
A brasileira ouvida pela reportagem relata que não houve caos durante a madrugada, mas que a cidade inteira ouviu os estrondos dos ataques dos Estados Unidos.
Ela diz ainda que as ruas ficaram muito mais vazias do que de costume para um sábado, e que as pessoas saíam de casa apenas para fazer compras nos poucos supermercados ou farmácias que abriram, mas que preferem ficar em segurança.
As forças de segurança venezuelana passaram o dia em rondas nas ruas da capital.
Ainda não foi divulgado um número oficial de vítimas da ofensiva militar (seja de civis ou de militares), mas nas redes sociais circulam imagens de sangues entre escombros e de corpos cobertos por cobertor, além de caminhões e prédios, inclusive residenciais, destruídos. Segundo a imprensa americana, pelo menos 40 venezuelanos morreram nos bombardeios.
O jornalista venezuelano ouvido pela Folha ressalta que, dado o histórico recente de muitos conflitos no país, os moradores de Caracas estão minimamente habituados a situações onde precisam ficar reclusos em casa, apenas realizando saídas rápidas para compra de itens essenciais.
Ele conversou com a reportagem após passar o dia transitando pela capital e relata que os bombardeios atingiram principalmente três pontos da cidade. Um deles é a base aérea de Carlota, ao leste. Ele viu carros, ônibus e um hangar queimado, mas não pôde se aproximar, porque o local foi evacuado pelos militares.
A maior parte dos danos, segundo ele, se concentrou na região do Forte Tiuna, uma enorme base militar venezuelana. No extremo leste de Caracas, a ofensiva dos Estados Unidos atingiu antenas de transmissão que ficam em um morro, relata o jornalista.
Ele conta ainda que se presume que a maior quantidade de vítimas esteja concentrada na área do aeroporto internacional da cidade, na região de Miranda. No entorno de todos esses locais, há vidros quebrados e outros destroços decorrentes dos bombardeios, afirma.
Ele diz ainda que o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), de Maduro, vem convocando uma vigília permanente na cidade, e que já há concentração de pessoas na avenida Urdaneta, uma das principais de Caracas.
A vice-líder do regime venezuelano, Delcy Rodríguez, exigiu a libertação de Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, também capturada. Ela reiterou que Maduro é “o único presidente” da Venezuela, e disse que o país jamais será colônia de qualquer outro.