Vivendo a três quilômetros e meio da Faixa de Gaza, there alvo da maior ofensiva militar de Israel na Palestina desde a Guerra dos Seis Dias, em 1967, o economista judeu Mark Levi, destaca que, apesar de buscar uma normalidade cotidiana, a vida tem sido difícil, em um estado de tensão permanente, que vem de antes do início da investida israelense.
“Constantemente, vemos a aviação, os helicópteros utilizados para os bombardeios. Eu ouço a artilharia, o bombardeio da Marinha. Por outro lado, a gente também percebe mísseis, que, às vezes, caem na região onde eu moro. Por sorte, tem caído em campos abertos”, descreveu Levi o seu dia-a-dia, em entrevista à Agência Brasil por telefone.
Judeu nascido no Egito, Levi morou no Brasil dos 11 aos 23 anos, fala português e hoje mora em um kibutz (forma de organização comunitária israelense que se assemelha a fazendas coletivas), com pouco mais de 350 habitantes chamado Zikin, localizado entre a cidade de Ashqelon e a fronteira norte da Faixa de Gaza. “A região está vivendo uma época difícil. Mas essa época difícil, para nós, não começou há duas semanas. Na realidade, há alguns anos a gente vive essa situação”, comentou Levi.
Ele informou que, nas cidades e nos kibutzim (plural de kibutz) que circundam a Faixa de Gaza, as escolas foram fechadas e parte da população decidiu fechar suas casas e se abrigar na casa de parentes que vivem no norte de Israel, próximo à fronteira com o Líbano. “O dia-a-dia é muito diferente do regular. Temos tido uma vida em uma situação de emergência, mas a maior parte das pessoas vai trabalhar. O grosso da população tenta viver normalmente, apesar da situação. As escolas da região foram fechadas, para evitar uma situação de crianças na rua sem a proximidade de um adulto. O fechamento das escolas é também para evitar uma aglomeração de crianças em um só lugar. Então as escolas e os jardins de infância não estão funcionando”, descreveu Levi.
A população que vive ao redor da Faixa de Gaza, nas cidades e nos kibutzim gira em torno de 600 mil a 700 mil pessoas. Levi, que antes trabalhava em uma das duas fábricas localizadas em Ziqin, trabalha há três semanas em Tel Aviv e, por isso, todos os dias, segue de carro para a cidade localizada no litoral. Ele ressalta que o percurso é tranqüilo, mas que tem a consciência do perigo.
“Sabemos que, a qualquer momento, em qualquer lugar podemos ser alvo de um míssil. O trânsito é bem intenso. Ao sair de Tel Aviv, vi uma grande manifestação em frente ao Ministério da Defesa, com pessoas dizendo não à guerra e exigindo um cessar-fogo”, disse.
No entanto a manifestação de Tel Aviv, na opinião de Levi, não reflete o pensamento da maior parte dos israelenses. Ele calcula que mais de 60% da população israelense apóia a ofensiva sobre Gaza e acredita que a proximidade com as eleições pode influenciar no sentido de prolongar o bombardeio contra os palestinos. “Essa ofensiva militar tem um apoio muito grande da população. Tem que se entender que essas situação de mísseis caindo em nossa região dura já uns seis ou sete anos. Havia um sentimento de saturação”, destacou.
As eleições para primeiro-ministro de Israel estão marcadas para o próximo dia 10 de fevereiro e a disputa está entre três candidatos, dos três principais partidos. “Receio que algumas considerações eleitorais possam atrapalhar uma atitude mais ponderada que promova um cessar-fogo. Na época pré-eleitoral, se leva em conta outro tipo de reflexão. Sendo hoje em dia a ofensiva muito popular, nenhum dos líderes está interessado em aparecer como aquele que tomou uma iniciativa de cessar-fogo”, disse Levi.
Disputam o cargo de primeiro-ministro a atual ministra de Negócios Estrangeiros e candidata pelo Kadima, Tzipi Livni; o atual ministro da Defesa, Ehud Barak, candidato pelo Partido Trabalhista; além do ex-premiê Benjamin Netanyahu, candidato pelo Likud, e que conta com o apoio da extrema direita, que sempre pregou uma reação dura contra os lançamentos de foguetes partindo de Gaza.
De acordo com Levi, a oposição liderada pelo que ele denomina de social democracia apóia a ofensiva contra Gaza, mas entende que o governo de israel “exagerou”. “Eu, pessoalmente, pertenço a essa oposição, que diz claramente que temos que ir para um cessar-fogo. Nós temos que tentar uma diálogo para tentar encontrar uma solução política. Nós acreditamos que a reação aos ataques do Hamas era necessária. A gente acha que Israel, de certa maneira ultrapassou a linha vermelha. Exagerou na dimensão da reação”, explicou. Há ainda a oposição liderada pelos partidos árabes, que têm o voto dos cerca de 1,5 milhão de cidadãos árabes residentes em Israel. “Eles têm uma atitude muito mais extrema, de condenar a ação, de falar em crimes contra a humanidade”, ressaltou.