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Meta de frear aquecimento global em 1,5°C não será atingida, diz chefe da ONU

Frear o aquecimento do planeta em 1,5°C em comparação com os níveis anteriores à Revolução Industrial é o objetivo principal do Acordo de Paris, assinado em 2015

Redação Jornal de Brasília

22/10/2025 18h45

Foto: Agência Brasil

GABRIEL GAMA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

A meta de limitar o aquecimento global a 1,5°C em relação à era pré-industrial não será alcançada, admitiu o secretário-geral da ONU, António Guterres, nesta quarta-feira (22).


“Uma coisa já está clara: não conseguiremos conter o aquecimento global abaixo de 1,5°C nos próximos anos”, disse Guterres em uma reunião na OMM (Organização Meteorológica Mundial), da ONU, em Genebra. “Ultrapassar o limite agora é inevitável.”


Frear o aquecimento do planeta em 1,5°C em comparação com os níveis anteriores à Revolução Industrial é o objetivo principal do Acordo de Paris, assinado em 2015.


A declaração foi dada a menos de 20 dias do início da COP30, a conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas a ser realizada em Belém em novembro.


“O aquecimento global está levando nosso planeta ao limite”, afirmou. “Cada um dos últimos dez anos foi o mais quente da história. O calor do oceano bate recordes e destrói ecossistemas. Nenhum país está a salvo de incêndios, inundações, tempestades e ondas de calor.


Guterres fez um apelo para que os países apresentem suas metas nacionais de ação climática a tempo para a COP30. Apenas 62 nações, menos de um terço das 195 signatárias do Acordo de Paris, protocolaram formalmente as novas versões dos documentos junto à UNFCCC, o escritório climático da ONU.


Ele afirmou que os países reunidos na COP30 precisam chegar a um plano para mobilizar US$ 1,3 trilhão (R$ 7 trilhões na cotação atual) por ano em financiamento climático para nações em desenvolvimento até 2035.


“A ciência nos diz que é necessário ter muito mais ambição”, alertou. “Como sempre, os países mais pobres e vulneráveis são os que pagam o preço mais alto, em particular os pequenos Estados insulares em desenvolvimento e os países menos desenvolvidos”, continuou.


O secretário-geral também pediu o reforço no combate à desinformação sobre as mudanças climáticas, depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter classificado o tema como “a maior fraude da história”.


“Devemos lutar contra a desinformação e a informação errônea, o assédio online e a ecoimpostura”, declarou Guterres. “Os cientistas e pesquisadores nunca devem ter medo de dizer a verdade.”
Em setembro, Guterres já falava em uma possível perda da meta de 1,5°C. “Estamos à beira do colapso deste objetivo”, disse à época. “É essencial que tenhamos uma redução drástica das emissões nos próximos anos se quisermos manter vivo o limite.”


Um relatório da OMM divulgado em junho de 2024 estimou que haja 47% de possibilidade de todos os anos no intervalo de 2024 a 2028 excederem o 1,5°C de aquecimento. Na época, Guterres afirmou que “estamos brincando de roleta russa com o nosso planeta”.


“A batalha para limitar o aumento da temperatura a 1,5°C será vencida ou perdida na década de 2020, sob a vigilância dos líderes de hoje”, disse na ocasião.


Após a fala de Guterres nesta segunda, Paulo Artaxo, membro do IPCC, o painel científico da ONU para o clima, afirmou que a COP30 deve discutir um caminho para o fim dos combustíveis fósseis.


“Sem uma transição energética rápida e eficiente, nós iremos caminhar para um aumento de temperatura de 2,8°C a 2,9°C em média, o que em áreas continentais significa um aumento de 4°C a 4,5°C”, disse à Folha de S.Paulo.


A COP28, em 2023, aprovou um acordo que mencionava a transição para longe dos fósseis, mas o tema não avançou desde então, e não há previsão de discussões sobre isso na cúpula em Belém. “O lobby da indústria do petróleo está falando mais alto até o momento, se contrapondo à saúde e ao bem-estar de 8 bilhões de habitantes do planeta”, afirmou o cientista.


Délcio Rodrigues, diretor executivo do Instituto ClimaInfo, disse que a perda do limite de 1,5°C não significa o fim da chance de conter o colapso climático, mas sim que “o tempo da hesitação acabou”.
“Cada fração de grau conta, e o que está em jogo agora é se vamos cruzar essa fronteira acelerando a transição ou empurrando o planeta para um território irreversível”, declarou.


Para ele, o Acordo de Paris mudou o rumo das economias, obrigou governos e empresas a agir e deve seguir como uma bússola para todos os países. “Às vésperas da COP30, cabe aos líderes manter esse impulso, acelerar a saída dos combustíveis fósseis e provar que ainda podemos cortar as emissões pela metade nesta década para garantir um futuro habitável”, avaliou.


Marta Salomon, especialista sênior do Instituto Talanoa, afirmou que a perda da meta de 1,5°C precisa ser entendida como um convite às ações climáticas, não como um fracasso das negociações entre os países. “A ultrapassagem desse limite, já contratada, é sinal de que teremos de lidar com eventos climáticos cada vez mais severos e frequentes.”


Também para Alexandre Prado, líder em mudanças climáticas do WWF-Brasil, o alerta de Guterres deixa clara a urgência de reduzir as emissões. “A gente precisa parar de emitir combustíveis fósseis e eliminar o desmatamento. É urgente! Da forma como está, o planeta não aguenta. E sem planeta, a gente não vive”, disse.


O ano de 2024 superou pela primeira vez o limite de 1,5°C, considerado o preferencial para conter as piores consequências do aquecimento global, como o desaparecimento de alguns países insulares. No ano passado, a temperatura média do ar foi calculada em 1,6°C acima da era pré-industrial, segundo o observatório Copernicus, vinculado à União Europeia.


Cientistas afirmam que a Terra pode voltar a níveis mais seguros de aquecimento no futuro, mesmo após exceder o 1,5°C temporariamente (o que é chamado de “overshoot”). A condição para isso acontecer é um corte significativo das emissões de gases-estufa.


Celeste Saulo, secretária-geral da OMM, afirmou na ocasião do recorde do ano passado que análises mais longas seriam necessárias para confirmar a perda da meta.


“É importante enfatizar que um único ano com mais de 1,5°C não significa que falhamos em alcançar as metas de temperatura de longo prazo do Acordo de Paris, que são medidas ao longo de décadas, não de um ano individual”, destacou.


Artigos independentes publicados na revista científica Nature Climate Change em fevereiro deste ano sugeriam que o planeta poderia ter entrado em um período de múltiplas décadas acima do patamar mais seguro.


“A menos que seja implementada uma mitigação climática rigorosa, o fato de 2024 ter sido o primeiro ano acima de 1,5°C indica que a Terra já entrou, com alta probabilidade, no período de 20 anos em que essa meta do Acordo de Paris será atingida”, disse a pesquisadora Emanuele Bevacqua, que liderou um dos trabalhos publicados.

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