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Mais de 150 menores brasileiros nos EUA foram apreendidos pela imigração em 2025, aponta base

Segundo os dados, 114 desses menores de idade deixaram os EUA. Não há informações sobre se as crianças estavam acompanhadas de adultos

Redação Jornal de Brasília

31/01/2026 9h06

Foto: ROBERTO SCHMIDT / AFP

Foto: ROBERTO SCHMIDT / AFP

ANGELA BOLDRINI
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

Ao menos 157 menores de idade brasileiros foram apreendidos por agentes de imigração nos Estados Unidos de janeiro a outubro de 2025, apontam dados do governo americano. Destes, 142 foram levados para centros de detenção do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega, na sigla em inglês).

A reportagem chegou a esse número analisando documentos obtidos via lei de acesso à informação dos EUA e compilados pelo Deportation Data Project, iniciativa da Universidade da Califórnia.

Os menores apreendidos são desde bebês nascidos em 2024 até adolescentes nascidos em 2008, com idades de 16 a 17 anos. O número real pode ser um pouco maior, já que a análise não incluiu nascidos em 2007, que poderiam ter 17 ou 18 anos no momento da abordagem. Os documentos não informam a data completa de nascimento.

Segundo os dados, 114 desses menores de idade deixaram os EUA. Não há informações sobre se as crianças estavam acompanhadas de adultos, mas, em pelo menos 40 casos, é possível inferir que sejam detenções familiares.

Isso porque há instalações do serviço de imigração que, ao menos teoricamente, não podem receber menores desacompanhados. É o caso do South Texas Family Residential Center, em Dilley, e do Karnes County Residential Center, em Karnes County, ambos no Texas. O primeiro recebeu 29 menores brasileiros no período analisado, e o segundo, 11.

O caso de permanência mais longa é o de um menino nascido em 2023 que passou 44 dias no South Texas Family Residential Center de julho a setembro de 2025. Segundo as informações fornecidas pelo governo americano, a criança foi deportada em 3 de setembro do ano passado.

O centro de detenção no sul do Texas foi alvo de protestos depois que agentes apreenderam Liam Conejo Ramos, um menino equatoriano de cinco anos. Ele foi levado à instalação em Dilley com o pai depois que foram capturados no dia 20 de janeiro de 2026 em Minneapolis, capital do estado de Minnesota.

Um deputado que visitou Liam afirmou que o menino está deprimido. Imagens da criança, que usava um gorro azul com orelhas de coelho e uma mochila do Homem-Aranha no momento da apreensão, tornaram-se símbolo dos protestos contra as operações anti-imigração do governo Donald Trump.

Para saber quantas crianças e adolescentes brasileiros tiveram o mesmo destino de Liam, a Folha analisou duas bases de dados do Deportation Data Project. A primeira contabiliza pessoas detidas pelo ICE durante operações em diferentes pontos dos EUA, desconsiderando apreensões por agentes de fronteira, o CBP (Serviço de Alfândega e Proteção das Fronteiras, em português).

No período analisado, foram 84 menores brasileiros detidos nessas condições. Destes, 69 foram encaminhados para centros de detenção, e 15 foram fichados e liberados.

A segunda base de dados contabiliza imigrantes presos em centros de detenção que podem ter sido detidos inicialmente pelo ICE ou por outra força de segurança — normalmente agentes de fronteira. A quantidade de brasileiros que aparecem apenas nesta planilha, ou seja, não foram detidos em operações administrativas do ICE, mas foram para a custódia da agência, é de 73 menores de idade.

A maior parte desses casos está relacionada a apreensões de migrantes na fronteira com o México, em que a captura inicial é feita por agentes do CBP.

O perfil das crianças apreendidas muda dependendo da circunstância inicial. A faixa etária de 1 a 5 anos corresponde a mais da metade dos casos (53%) em que o CBP aparece como agência inicial. Já em casos de apreensões feitas diretamente pelo ICE, há pouca discrepância de idades: 32% na faixa de até 5 anos, 32% de 11 a 15 anos, e 29% de 6 a 11 anos. Maiores de 15 anos são minoria.

Meninos compõem 89 dos apreendidos, e meninas são 68. Entre os menores que foram apreendidos diretamente pelo ICE, 53 foram encontrados em Boston, no estado de Massachusetts, onde há uma grande comunidade brasileira. Houve também apreensões em outros nove estados.

Um dos casos é o de um adolescente de 13 anos preso em Everett, um subúrbio de Boston. Ele foi detido por agentes do ICE em 9 de outubro de 2025 e transferido para um centro de detenção de menores infratores porque o governo americano o acusa de ligação com uma gangue. Nos dados do Deportation Data Project, não há data de soltura —mas jornais da comunidade brasileira em Massachusetts publicaram que ele retornou ao Brasil no fim de outubro. A Folha não conseguiu contato com a família.

Já entre os 73 casos em que a detenção foi realizada por outra agência, 57 menores foram apreendidos no Texas.

No geral, o tempo de permanência das crianças e adolescentes nos centros de detenção, independentemente do órgão que fez a apreensão, varia de horas a cerca de um mês. A maior parte das crianças que deixaram o país aparecem na lista de deportações. Há apenas dois casos listados de saída voluntária.

Dados do painel do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania afirmam que 93 menores de idade foram deportados de 7 de fevereiro a 31 de dezembro de 2025. A discrepância nos dados pode ser explicada pela dificuldade de obtenção de informações sobre imigrantes detidos pelo ICE. Além disso, há alguns casos listados na base do Deportation Data Project de menores que foram enviados a outros países, como o Panamá.

Outros 43 menores de idade continuavam nos Estados Unidos no momento da extração da base de dados, em outubro. Quase metade destes tinham processos classificados de ativos, o que significa que há um processo em curso que pode resultar em deportação.

Em três casos, não há registro de data de saída do centro de detenção. Esses menores foram apreendidos em outubro, mesmo mês em que os dados do ICE foram enviados ao Deportation Data Project, o que significa que é provável que o status, quase quatro meses depois, já tenha sido alterado.

A reportagem entrou em contato com o Itamaraty, que informou que os dados de detenções do ICE não são compartilhados pelas autoridades americanas e que a prestação de ajuda consular depende de acionamento —ou seja, é preciso que a pessoa detida ou os familiares procurem a representação brasileira.

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