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Mundo

Mães da Praça de Maio darão vida à prisão clandestina

Arquivo Geral

01/02/2008 0h00

As Mães da Praça de Maio compareceram hoje ao prédio militar da capital argentina onde funcionou a principal prisão clandestina da última ditadura militar, troche na qual em abril será inaugurado um centro cultural para lembrar os que desapareceram entre 1976 e 1983.

Em um ato liderado por Hebe de Bonafini, a titular do setor mais radical em que se dividiu o grupo humanitário, a Associação Mães da Praça de Maio tomou posse daquele que foi o Liceu Naval de Buenos Aires dentro do prédio da Escola de Mecânica da Marinha (Esma).

“Vamos dar vida, alegria e cor a este lugar onde aconteceu tanta morte e violência”, disse De Bonafini diante de centenas de pessoas, entre elas artistas e autoridades nacionais, que participaram da cerimônia nas instalações da Esma, no norte de Buenos Aires.

“Estamos aqui para dizer aos repressores que vencemos, que não puderam conosco, que não puderam com nossos filhos”, disse a líder após breves palavras da cantora Teresa Parodi, que dirigirá o projeto.

Hebe de Bonafini convocou artistas plásticos e o “povo em geral” a participar, para “pintar flores e sóis onde houve morte”.

“Vamos abrir o centro cultural mais maravilhoso e mais cheio de vida que se pode imaginar”, afirmou a presidente da associação que há mais de 30 anos reivindica o paradeiro dos desaparecidos durante a ditadura, que agradeceu ao ex-presidente Néstor Kirchner (2003-2007) pela concretização desta iniciativa.

Parodi disse que estará à frente do projeto “com o desafio de trocar a morte por vida”, enquanto Paula, uma das várias presentes, comentou à Agência Efe que estar ali junto ao filho de um ano era proveniente do desejo de “viver em uma Argentina melhor”.

“Aqui, houve ontem morte e desolação e hoje há cultura e vida”, disse a jovem antes de dizer que não perdeu familiares durante a ditadura, mas que simpatiza com a causa das Mães.

O Liceu Naval, que será transformado em um centro cultural, funcionava em um dos 34 edifícios do conjunto de 18 hectares da Esma, no bairro de Núñez.

Em 2004, Néstor Kirchner anunciou a recuperação do centro clandestino de detenção para a criação de um Museu da Memória.

Em vias de concretização, o projeto ocupará também o cassino de oficiais, onde se acredita que cerca de 5 mil pessoas detidas ilegalmente pelo Governo foram hospedadas, muitas das quais permanecem desaparecidas.

Entre outras vítimas da denominada “guerra suja” que permaneceram na Esma estão Azucena Villaflor, fundadora das Mães da Praça de Maio, e as religiosas francesas Alice Domon e Léonie Duquet, todas elas desaparecidas.

O cassino de oficiais também é tristemente conhecido por ser o ponto de partida dos “vôos da morte”, momentos em que os detidos eram lançados vivos ao mar.

As instalações da Esma, que foram desocupadas pela Armada em outubro, serão administradas em conjunto pelo Estado nacional, o Governo da capital do país e entidades sociais e de direitos humanos, entre as quais as Mães e Avós da Praça de Maio e os sobreviventes da prisão clandestina.

De acordo com os números oficiais, cerca de 18 mil pessoas desapareceram na Argentina entre 1976 e 1983. As entidades de direitos humanos estimam em 30 mil o número de desaparecidos.

Em 10 de dezembro o ex-militar Héctor Febres, um dos piores torturadores deste centro de detenção, foi encontrado morto por envenenamento quatro dias antes de sair o veredicto do julgamento do qual era réu por crimes cometidos na Esma contra humanidade, primeiro dos casos da Esma a ser levado adiante pela Argentina.

A causa da Esma é uma das iniciadas na Argentina após a anulação parlamentar das “leis do perdão” a repressores, em 2003, e tem entre seus principais detidos e processados o ex-militar Alfredo Astiz, à espera de julgamento.

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