IGOR GIELOW
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Quando o cerco militar de Donald Trump à Venezuela se mostrou inexorável, no fim de novembro passado, Nicolás Maduro negociou com seu aliado e também ditador Aleksandr Lukachenko um exílio confortável em Belarus.
A operação teve apoio da Rússia, país que apostou alto no chavismo como forma de manter alguma projeção de poder na vizinhança estratégica dos Estados Unidos ao longo dos anos. Não deu tempo, como se sabe, e Maduro agora está em uma prisão aguardando julgamento em Nova York.
As tratativas foram relatadas à Folha por duas pessoas com conhecimento do assunto em Moscou. Maduro enviou seu embaixador na Rússia, general Jesús Salazar Velásquez, no dia 25 de novembro a Minsk. Ele ouviu do governo Lukachenko que tudo estaria pronto para receber Maduro.
O ditador latino-americano, segundo o relato, preferia ir a Moscou, mas Vladimir Putin temia melindrar Donald Trump em meio às negociações para encerrar a Guerra da Ucrânia, na qual o russo tem uma posição privilegiada de interlocução com o americano.
No dia 10 de dezembro, Trump escalou sua pressão sobre Caracas ao apreender um petroleiro que levava óleo para Cuba. No dia seguinte, Velázquez estava de volta a Minsk. Lukachenko, enquanto isso, azeitava sua relação com a Casa Banca, soltando no dia 13 uma série de presos políticos.
Em troca, Trump aliviou parte das sanções sobre o país, que é uma espécie de vassalo econômico e militar de Putin desde que Lukachenko foi acossado por megaprotestos após a fraude eleitoral de 2020, apoiando os russos contra a Ucrânia, ainda que não participe diretamente da guerra.
Dois dias depois, Lukachenko disse em entrevista que receberia Maduro com prazer caso ele deixasse o poder mas negou ter tido qualquer conversa com os venezuelanos.
Segundo as pessoas ouvidas pela reportagem, a oferta segue valendo, caso haja alguma disposição de Trump de se livrar de Maduro após o julgamento em que ele certamente será condenado por narcoterrorismo.
KREMLIN ADOTA CAUTELA
Para o Kremlin, a ação militar americana do sábado (3) foi um desastre político, mas a palavra de ordem por ora é cautela.
A avaliação inicial no governo russo, segundo os observadores ouvidos, é contraintuitiva em meio às análises de que o ataque irá liberar outras potências para flexionar a musculatura militar em seu entorno estratégico.
Segundo essa leitura, Putin estaria à vontade para continuar sua ação na Ucrânia, e nada ocorreria se Xi Jinping enfim invadisse Taiwan. Já o relato colhido pela reportagem é de temor de que Trump, empoderado pela rápida captura de Maduro, endureça sua posição em relação à Rússia sobre Ucrânia.
Uma terceira pessoa consultada, por sua vez, acredita na visão das zonas de influência. Ela diz que há a percepção de que as conversas de paz não irão a lugar algum, e que Trump abandonará Kiev, deixando o manejo da crise na mão de seus aliados europeus.
Este é um cenário desejado pela linha-dura do Kremlin, que acredita na possibilidade de vitória militar após os sucessos graduais registrados no ano passado. Por mais que a Europa tenha recursos, Volodimir Zelenski depende de armas americanas para continuar a se defender.
Outra avaliação corrente em Moscou é de que Trump não irá parar em Caracas. O americano já insinuou ação militar contra o governo esquerdista da Colômbia e vê a ditadura comunista de Cuba como agônica.
Assim, os russos manterão a retórica de crítica à captura de Maduro e de apoio continuado à ditadura chavista que, para todos os efeitos, segue comandando a Venezuela. O mesmo fez a China, outro alvo de Trump em seu primeiro teste da nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, que preconiza expulsar rivais do Hemisfério Ocidental.
Na prática, contudo, nenhum dos aliados de Caracas tem o que fazer além de protestar. No caso chinês, Xi está em meio a negociações comerciais vitais para seu país com os EUA.
PUTIN INVESTIU PESADO EM CARACAS
Putin investiu pesadamente na relação com a Venezuela quando Hugo Chávez chegou ao poder, em 1999, passando a fornecer equipamento militar inédito na região, como sistemas antiaéreos S-300 e caças Sukhoi Su-30, os mais poderosos da América Latina então.
Segundo a estatal de exportação de armas russas Rosoboronexport, de 2005 a 2013 foi vendido o equivalente hoje a R$ 80 bilhões em equipamentos.
A relação era propositalmente provocativa. Em 2008, Putin enviou dois bombardeiros estratégicos de ataque nuclear Tupolev Tu-160 para treinamento na Venezuela, e com frequência flotilhas militares russas aportam no país e em Cuba, outra aliada histórica de Moscou e fiadora política do chavismo.
Sob Maduro, a relação esfriou, em especial na área econômica. Mas os contatos seguiam, e no último encontro entre o venezuelano e Putin, em maio passado, a cooperação estratégica dos países foi renovada.
Em 2020, as sanções do primeiro governo Trump sobre Caracas fizeram a petroleira estatal russa Rosneft encerrar suas operações no país. Das cinco joint-ventures que tinha, duas sobreviveram na mão de uma estatal russa lateral, cujo contrato para exploração limitada nos campos de Boquerón e Perija foi estendido no ano passado até 2041.
Com Trump dizendo que vai controlar a indústria de petróleo do país, é incerto o futuro desses negócios.
O comércio entre Moscou e Caracas é pequeno, R$ 6,5 bilhões em 2024, quase tudo em petróleo venezuelano exportado para refino na Rússia.