FOLHAPRESS
A tropa de choque entrou em confronto com estudantes do ensino médio em cidades de toda a França nesta sexta-feira (2), enquanto o governo do presidente Emmanuel Macron tentava conter protestos cada vez mais violentos contra as condições nas salas de aula e falta de recursos para educação.
Nuvens de gás lacrimogêneo tomaram as ruas de Estrasburgo, no leste do país; fogos de artifício foram disparados contra as barreiras policiais em Marselha, no sul; e lixeiras foram incendiadas em Rennes, no oeste.
Em Paris, onde também houve confrontos, estudantes ergueram cartazes com os dizeres: “Temos um futuro para construir, não para suportar”.
Os protestos dos alunos do ensino médio francês afetam mais de 560 escolas, segundo o Ministério da Educação.
Mais cedo, o ministro havia informado que a previsão era de fechamento de 400 das 3.700 escolas de ensino médio do país.
A seis meses das eleições presidenciais do próximo ano (marcadas para 18 de abril e 2 de maio), pesquisas de opinião mostram reiteradamente a profunda impopularidade de Macron e de seu governo, de orientação de centro-direita.
Os cortes orçamentários previstos, que agravam a crise de financiamento da educação, alimentaram o descontentamento.
MINISTRO DIZ QUE PAIS DEVEM PAGAR PELOS DANOS
Os protestos eclodiram na região de Paris na semana passada, mas se tornaram cada vez mais violentos à medida que se espalharam pelo país.
O ministro da Justiça, Gerald Darmanin, disse à rádio RTL que a polícia prendeu 2.000 pessoas, a maioria adolescentes, desde o início dos protestos. Segundo ele, os pais daqueles que causarem danos à propriedade devem ser obrigados a arcar com o ressarcimento.
Quatrocentas escolas de ensino médio cerca de 1 em cada 10 ficaram fechadas nesta sexta-feira devido aos distúrbios, e o ministro da Educação, Edouard Geffray, pediu aos pais que desaconselhassem seus filhos a participar dos protestos nas ruas.
“Nas ruas, as crianças correm perigo”, disse Geffray à BFM TV.
“É preciso ouvir os alunos do ensino médio. Suas dificuldades exigem respostas concretas, tanto nas escolas quanto em nível nacional”, escreveu o ministro no X.
Ele anunciou na TV francesa que, a partir de segunda-feira (5), o governo irá disponibilizar uma plataforma para que os alunos expressem expectativas e propostas, individual ou coletivamente. “As contribuições serão analisadas localmente e servirão de base para um relatório nacional.”
Vários estudantes da região de Paris ouvidos pela Reuters em frente a escolas de ensino médio no início da semana disseram que não participariam dos protestos nesta sexta-feira devido à escalada da violência.
Darmanin afirmou que o movimento estudantil havia sido sequestrado por “elementos de fora”.
A líder de ultradireita Marine Le Pen usou as redes sociais para criticar os protestos e apoiar a ação policial. “A imagem desta jovem policial perseguida por uma multidão enfurecida que gritava seu ódio, derrubada no chão e agredida é insuportável”, escreveu.
“Esses atos merecem punições exemplares. Que ela saiba que, nesta noite, milhões de franceses lhe oferecem seu caloroso apoio”, seguiu Le Pen, ao compartilhar um vídeo no X.
EDUCAÇÃO TERÁ AUMENTO ORÇAMENTÁRIO ABAIXO DA INFLAÇÃO
Estudantes que bloqueiam suas escolas manifestaram indignação com a superlotação das salas de aula, a frequente falta de professores e a precariedade dos prédios, atribuindo os problemas a anos de investimentos insuficientes.
“Somos 35 por turma, não há cadeiras suficientes nas salas, e o intervalo de uma hora para o almoço é curto demais para que todos consigam comer”, disse Kesia, de 15 anos, à agência de notícias Reuters no subúrbio parisiense de Pantin, antes de sair correndo quando a polícia usou gás lacrimogêneo.
De acordo com o projeto de Orçamento de 2027 apresentado pelo governo na quinta-feira, o orçamento da educação deverá aumentar 1,7%, abaixo da inflação, para 65,53 bilhões (R$ 383,2 bilhões), excluindo as aposentadorias dos professores.
A educação é tradicionalmente a maior rubrica orçamentária, mas isso mudará no próximo ano, quando os custos do serviço da dívida deverão chegar a 74,5 bilhões (R$ 435,7 bilhões), segundo o projeto de lei.
LFI, DE EXTREMA ESQUERDA, NEGA TER INCITADO PROTESTOS
Agências de inteligência disseram em uma reunião de crise na quinta-feira (1º) que o movimento de protesto havia sido iniciado por políticos do partido de extrema esquerda França Insubmissa (LFI).
Parlamentares de destaque da LFI rejeitaram as acusações e acusaram o governo de politizar os protestos antes da eleição que definirá o sucessor de Macron.
Estudantes e grupos de defesa dos direitos humanos acusaram a polícia de usar táticas truculentas contra menores, incluindo cassetetes, gás lacrimogêneo e armas não letais Flash-Ball.
A Anistia Internacional alertou contra o uso excessivo da força policial. “Os estudantes devem ser protegidos, não espancados com cassetetes”, afirmou a organização de defesa dos direitos humanos.
O Ministério do Interior informou nesta sexta-feira que abriu três investigações sobre violência policial contra manifestantes.
Em um sinal de que os protestos podem se espalhar para além das fronteiras francesas, alguns estudantes do ensino médio da cidade de Liège, na Bélgica, começaram a protestar na quinta-feira. Um porta-voz da prefeitura disse que as escolas de ensino médio ficaram fechadas nesta sexta-feira.
Macron enfrenta protestos de estudantes e fechamento de escolas por toda a França
Protestos dos alunos do ensino médio francês afetam mais de 560 escolas, segundo o Ministério da Educação
Foto: Michel Euler / POOL / AFP / CP